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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

O TATO DE SAMARA VOLPONY


Ferreira Gullar no poema FICA O NÃO DITO POR DITO, que abre o livro Em Alguma Parte Alguma, diz de forma profunda o que é a poesia: “é que só o que não se sabe é poesia, assim o poeta inventa o que dizer, e que só ao dizê-lo, vai saber o que precisava dizer, ou poderia”. Fica cada vez mais claro, ao autor contemporâneo, a necessidade de revelação das cenas cotidianas para tratar o olhar turvo e cansado.

Samara Volpony busca o palmito da linguagem, as imagens mais próximas das mãos, os pés no chão, da pele. Sabe tocar as palavras e a vida. Conhece os moldes do tato, assim como quem navega o rio várias vezes.

O livro Lua de Memórias toca fundo as lembranças do vivido, que se espalha pelos igarapés do que ainda está nas encostas do presente. Ela sabe recuperar com consciência tudo que precisa dizer, construindo uma poética do toque como podemos constatar num trecho de SOB[RE] AS MÃOS E UNHAS DE SANDRA:

 

as unhas de Sandra

escondem minha confissão:

tão rentes na pele de quem sente

tão frágil no cravo das suas unhas

no crivo de sua mão.

 

O corpus desta crestomatia tem a marca do retorno. São poemas que reconhecem as manchas na parede. São cartas endereçadas para a mãe que precisam ser lidas pela própria remetente. Parece mesmo o pescador adivinhando os peixes pela escama, ao passo que escapa das feridas abertas, pelo tempo.

O tato de Samara Volpony sente e nos faz sentir a poesia, sem roupa íntima.

 

PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017) e Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Comendador e membro da Academia Poética Brasileira.

A INUTILIDADE DO “TUDO BEM”


Tornou-se comum para qualquer pessoa (definição da qual não me excluo) ao encontrar outra na rua, perguntar: "está tudo bem?"

Será que queremos mesmo saber?

A vida humana é ou, para alguns, dotada de solidariedade. Essa é a visão otimista da coisa, personificada por ícones como Cristo, Maomé, Davi e outros.

Nesse sentido, existem aqueles (não sei se muitos ou poucos) que ao fazer pergunta acima e receber a resposta "não, não está" ou "mais ou menos" pagariam ou pelo menos passariam uma ligação para saber o que está havendo e oferecer uma palavra amiga.

Entretanto, existe o lado pessimista. Você pergunta: " tudo bem?" de maneira automática. Se recebe um "tudo", você já passou metade do corpo daquela pessoa... imagine se ela diz que não está tudo bem.

Reflexão: quando perguntar "Tudo bem?", esteja preparado para a resposta. Caso contrário, deixe esse automatismo de lado para que a emenda não se torne pior do que o soneto.

PARAFRASEANDO

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


E agora, José?

A cama está fria, a alma vazia

O sol já não brilha, a prisão te humilha

E agora, José?

A noite está quente, saudades da gente

A chave não abre, o tempo não passa

Sair já não sabe, não há o que invente

E agora, José?

 

Não tem nem quartel, nem farda de oficial

Nem diploma de doutor, ou de autoridade

Nada disso tem valor, tudo vira mediocridade

E agora, José?

 

Os amigos foram mandados embora,

Não tem carnaval, muito menos hospital

Na quarta-feira de cinzas, nova manchete de jornal

E agora, José?

 

Não tem mais caneta, o nome na sarjeta

Lhe falta papel moeda, lhe sobra um nó na garganta 

O choro não para, agonia sangrenta....

E agora, José?

 

A madrugada não passa, e o dia não vem

A mulher não vem, os puxa-sacos também

O advogado não vem, o habeas corpus nem, nem 

E agora, José?

 

A manhã já chegou e não trouxe ninguém

A esperança se  esvai, saudades do pai,

Tenente sem patente, uma lágrima que cai

E agora, José?

 

Uma guinada na vida ostentada, de 360 graus

Numa vida de muitas idas e vindas, e muitos degraus

Sentar-se, deitar-se ou ficar em pé, o que faz menos mal?

E agora, José?

 

Rezar, orar, chorar, namorar nem pensar!

Olhar perdido no infinito teto, de poucos metros

Fingir já não pode, sem teta não pode mamar  

E agora, José?

 

Professas agora uma nova fé

Exilado entre quatro paredes de ferro

Buscas purificar teu coração em Javé, mas...

E agora, José?

 

Resta quanto tempo, nem sopro nem vento

Nem ilha e nem praia, a chuva que caia

O povo que vaia, e o que compartilha o tormento

E agora, José?  

 

O terno bonito, a gravata  vermelha,

A calça do melhor tecido, cor de areia

Os sapatos brilhando, ficaram para trás

E agora, José?

 

Se arrependimento matasse, jamais

Faria outra vez, o que fez ou não faz

Mortífera e nauseabunda embriaguez

E agora, José?

José, e agora? 

 

 

*Clélio Silveira Filho é Jornalista, Escritor, Compositor, membro fundador da Academia de Letras de Santa Inês, laureado com a Comenda Manuel Beckmann, concedida pela Assembleia Estadual do Maranhão, e a Comenda  Internacional Thiago de Mello, concedida pela Academia Poética Brasileira.


PAIXÃO SURDA 


Tenho um céu próprio

Onde a alva lua sou eu

Que rasga a monotonia do silêncio

Que povoa teu quarto

Escuro de desejo

No conforto de um sonho

Para ti componho meu abraço

Misturo-me na sombra do céu

Radiante dos teus movimentos

Beijo a tua boca

Que estreita o sorriso

Para o novo amanhecer

Quero teu corpo aquecer

E em teus braços o desejo intenso

De beijos e delírios voarão livres

Nas curvas de cada vento

Quero sentir teu amor

Na luminosidade da paixão,

Paixão cega, surda e romântica

De quem ama

 

*Vicente Telles é compositor, poeta, cantor, músico e escritor, com trabalho lançado no Brasil e na Europa. Nascido em Santa Inês ele é radicado no Rio de Janeiro desde o final do ano de 1975.

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 25/05/2019

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
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