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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

“O Amor nos Tempos da Pressa”


Erich Fromm(1900-1980), psicanalista e filósofo alemão, afirma que "o amor é uma mentira, porque é um estado de exaltação e cegueira" e Schopenhauer, filósofo alemão do séc. XIX, disse que era "uma armadilha da natureza". Mas os dois pensadores apostavam no fato de que "o amor bem vivido pode atingir o ideal".  Fromm sustenta que o amor é como um sentimento que todos nós temos o potencial para gerar. No entanto, requer cuidados para ser mantido. O estudo do amor que esse filósofo humanista fez se destaca pela sua grande maturidade. Ele entende o amor como uma arte que pode ser aprendida e que precisa ser cultivada e cuidada para não interromper o processo da aprendizagem amorosa.

O primeiro passo é, segundo Fromm, tornar-se consciente de que o amor é uma arte, assim como a vida é uma arte. “Se queremos aprender a amar, devemos proceder da mesma forma como se fôssemos aprender qualquer outra arte, como a música, pintura, carpintaria ou a medicina e engenharia”, destaca ele. Mas por outro lado, ressalta ainda que o desamor provoca marcas profundas quando o sofrimento está ligado ao amor que foi vivido e deixado na memória. Ou quando este se transforma em uma dor que dura toda a vida, como sendo o aspecto "mais terrível" do amor. São dois lados da mesma moeda.

Fato é que, aproveitando a temática do dia dos namorados, faço algumas indagações “filosóficas” sobre o “Amor nos tempos da pressa” (perdón Gabriel Garcia Marquez). Como seguir amando? Pois vivemos em plena sociedade da pressa e da crise de valores. E, se por um lado, as novas biotecnologias nos fazem avançar em muitos aspectos, também formas de amor foram(serão) perdidas. Porque em uma sociedade onde vamos rápido para a vida, tudo é mais individual e sempre se espera, como fim, o sucesso. Os coaches de relacionamentos estão espalhados por aí com fórmulas prontas a ensinar sobre amar. A idealização do amor é vista, portanto, sob a égide da obsessão pelo positivo. Então, nada melhor para isso do que ter nos relacionamentos das redes sociais, nos chamados crushes, o ideal de amor e da eterna felicidade artificial. Onde não há desentendimento, nem enfado. E, oxalá, ocorra tempo para usufruírem da vida fora delas.

Contra essa corrente dos amores artificiais, o filósofo espanhol Javier Sádaba aposta "em uma cultura de amor diferente da atual". Porquanto, apesar das tristezas e da sociedade que tivemos de viver, é sensato fazer um esforço por amor, diz. Corroboro dessa vertente em que, em outras palavras, busque-se um amor que não seja nem mitificado e nem sobre-humano para que não se caia no dogmatismo da vulgaridade dele. Pois, se é na vida real a qual estamos inseridos que a vida amorosa corre, nada melhor do que aprender a vivenciá-lo na vida cotidiana. Não obstante, é no dia a dia, através dos pequenos gestos, que o amor sublime acontece. Não mais, não menos. O amor é, ao meu ver, o resultado das ações da vida real, em outras palavras.

Mas isso não significa que não sejamos românticos com nossos parceiros e nossas parceiras. Ao contrário disso. E aqui não espero ser impositiva e nem trazer verdades absolutas. Porque também sei que, em matéria de amor entre casais, não há fórmulas prontas. O texto é tão somente para despertar indagações. Digamos que seja uma leitura a mais, uma vez que aqui e acolá, como leitora curiosa, busco sempre inspirações para o que vivo e escrevo.

E como fonte de inspiração busquei desta vez na obra “O amor nos tempos do cólera” (1985) do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927 – 2014), motivação para escrever sobre o tema. Pois de certa maneira, o amor do casal de protagonistas representa o contrário daquilo a que o sociólogo Bauman chamaria de “tempos líquidos” e do qual discorrei até aqui. Ademais, durante toda a obra, somos brindados com passagens de puro êxtase. É uma história sobre o amor, o envelhecimento e a morte que nos leva a refletir sobre esses temas. E ainda sobre obstinação e esperança através das cartas trocadas entre Fermina Daza e Florentino Ariza. Trechos como quando ela lembra a ele “que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho” (p.86) ou quando lembra que “haviam vivido juntos o bastante para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas ainda mais denso quando mais perto da morte." (p.491).

Portanto, são as emoções, nossa linguagem mais íntima e pessoal, que nos ajudam a nos relacionarmos de forma mais honesta. Basta que saibamos dosá-las. Então, sim, é possível amar. Desde que, citando Fromm, entendamos que o “amor é um desafio constante. Não é um lugar de descanso, mas de movimento, crescimento, trabalho em conjunto; que haja harmonia ou conflito, alegria ou tristeza, isto é secundário para o fato fundamental de que dois seres se experimentam desde a essência da sua existência, que estão comprometidos com o relacionamento e não estão juntos para fugir de si mesmos”.

Georgiana Lima Viana:

Formada em Letras pela UFMA. Pós-graduada em Inglês pela Universidade do Alabama ( BAMA U) e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade Nacional de Rosario( Argentina). Email para contato: [email protected]

PARALELO 17: TRANSCENDÊNCIA E INDIGNAÇÃO NA POÉTICA DE LUÍS AUGUSTO CASSAS

Transcender é um verbo que joga a palavra para o céu. Busca a asa do colibri e sustenta-se no alto, com um bater quase mágico, ou melhor, divino. Tão rápido que nos cega. Perito na arte como um monge budista, sabe elevar-se. Retrata muito bem o último livro lançado por Luís Augusto Cassas, pela Editora Penalux, em 2018.

Recebi a obra completa do Cassas pelo SEDEX. Fiquei entusiasmado com a qualidade deste consagrado poeta contemporâneo, dono de uma vasta produção. Premiado e detentor de uma fortuna crítica musculosa, capaz de apontar caminhos seguros para a literatura brasileira.

Não resisti. Comecei a lê-lo pelo Paralelo 17. Coletânea dividida em seções didaticamente pensadas: os meridianos de fogo, o caminho das pedras azuis, a face cinza da aurora, onde o vento faz a curva, viagem ao DNA ancestral, nuvens & pétalas e o vale da lua crescente. Todos os pontos importantes da poesia deste “poeta inédito” estão espalhados aí, numa cama de plumas.

Álvaro Alves de Faria afirma na segunda página da apresentação: “o poeta está do lado dos que são honestos com a poesia, com o poema, consigo mesmo. Um poeta que simplesmente é poeta”. Estas conclusões ampliam o estudo do (círculo 17).

Em AS PURIFICAÇÕES, o eu lírico experimenta a levitação pela palavra:

só existe

uma curva verdadeira:

a palavra.

o resto:

purificações.

(CASSAS, 2018, p.73)

Há uma fuga da imanência, provocada pela voz poética, com o jogo de alteração real da vida, feito pelo elástico da metáfora. “A palavra é a única curva verdadeira”. Uma afirmação com a carnadura de premissa filosófica que nos ajuda a penetrar nas belezas transcendentes do Cassas.

Por outro lado, a purgação, o desfazer-se das impurezas proposto já no título do poema, elevam a construção espiritual do poema. É um autor, portanto, desenhado na espiritualidade universal.

Nesta mesma perspectiva, o texto A NECESSIDADE É A MÃE DA LIBERDADE inaugura um olhar humano para o injustiçado no sistema capitalista, que representa uma parcela enorme do desejo de “apenas almoçar:

casaco cinza surrado

sobre camiseta branca

barbante nas calças

o mendigo-iogue

em greve de fome

sentado em padmásana

à porta do metrô

latinha vazia ao lado

c/ a inscrição:

‘preciso almoçar,

obrigado. 

(CASSAS, 2018, P.83)

A constatação da inscrição é escatológica. Cassas leva a dureza da vida para a cena do poema, de maneira que, nos toca profundamente e nos sacode. Precisamos ferir os olhos. Eles precisam enxergar e transcender para um outro humano, mais coletivo/solidário.

Em seguida, ele forma uma imagem coetânea. Há uma nítida inversão de valores em A ESTRANHA ARTE DO CUIDADO:

os bichos os bichos

estão bem cuidados

os homens os homens

é que comem

lixo.

(CASSAS, 2018, P.91)

A palavra de Luís Augusto Cassas acende o fogo, nos sentidos de quem não sentia mais. Posso inclusive, apontar o diálogo entre o poema acima e O Bicho de Manuel Bandeira. Ambos são cartazes de denúncias. Não suportam mais a coisificação do homem. Há um sentimento de revolta na repetição de “os homens os homens”. Uma repulsa do quadro social injusto.

Toda obra poética que mergulha profundamente na realidade cósmica primordial, torna-se rival do pragmatismo neoliberal, por isso faz denúncias mesmo sem percebê-las, em muitos casos.

Na imaginação de Cassas é possível inverter a lógica da exploração como observamos nos versos de AVENIDA PAULISTA (A PROFECIA), página 95:

quando se cumprir

a profecia

de Isaias.

e os lobos

confraternizarem

com os cordeiros.

serão os mendigos

servidos

pelos banqueiros.

e soarão trombetas

de júbilo

no universo inteiro.

O sonho, a esperança, a harmonia convivem com o poeta. Cassas alimenta o mistério da profecia como um cristão, apesar de ser estudioso Taoísta. A criatividade dele nos mostra um mundo novo e idealizado como o de Platão. A realidade cruel, talvez não atenda aos oráculos do poeta, no entanto, sua escrita é reflexiva, consciente, ao ponto de transcender.

Finalizo com uma citação de Sophia de Mello Breyner Andresen, que parece ler os versos do Cassas: “a fidelidade à transcendência está ligada à imanência. A essência da palavra de Cristo está no Evangelho, na revelação. Mas essa revelação só pode ser entendida se o homem quiser ver bem o mundo à sua volta”.

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 21/06/2019

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
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