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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

SOU

Sou um pássaro que teme altura

Um gato que adora banho

Na família sou estranho

Do vapor sou a parte dura

 

Sou o lucro do corrupto mercador

Do alfabeto sou a letra muda

Na plateia sou a parte surda

Um ser sensível que adora a dor

 

Sou o feto que não vai nascer

Um mendigo que rejeita pão

Sou o casal que não tem tesão

E o jogador que só quer perder

 

Sou uma vida vil e Severina

O santo que não espalha amor

De todos os vícios sou o torpor

Sou que mata a sede na urina

 

Sou a pedofilia do religioso

O calendário que só marca a morte

Sou o puro azar dentro da sorte

Entre as verdades sou o mentiroso

 

Sou o espinho que perdeu a flor

A parte mais dolorida do aborto

Um sonho lindo que já nasceu morto

O preconceito que semeia a dor

 

Sou o relógio que não marca o tempo

A igreja que só pensa em grana

O espelho que o reflexo engana

Um redemoinho que não tem mais vento

 

Sou a solidão em toda a companhia

A poesia que não tem afeto

O horizonte que se vê de perto

Do passado sou a melancolia

 

Sou a total cegueira da retina

O prazer que vem da cicatriz

Na vida estou por um triz

Escondido entre as coxas da menina

 

Sou a mudez do grande orador

O câncer que a muitos mata

A mão do amigo que maltrata

E o coração que não quer o amor

 

Sou a tola intolerância da maioria

O homofóbico que adora os gays

Nasci sob o signo seis seis seis

Nos funerais sou a alegria

 

Sou a corrupção que corre na veia

O desatino de quem se diz racional

Sou o útero estéril de todo anima

E o Natal que não vai ter ceia

 

De todos os olhares sou o puro desdém

Entre os narcisos sou o horroroso

Sou tudo isso: um ser espantoso

Sou você e os outros e não sou ninguém

 

Por: Marcio Borges


EU TE AVISEI, CORAÇÃO!


*Por Leonildo Alves de Sousa

 

Acalma, coração!!!

Por que estás assim tão agitado

Sem prudência e satisfação...???

Te falei pra não ser tão apressado!

 

Agora, coração, ou tu aguentas

E sossegas, ou parte logo pra final...

Reanimas a tua emoção e me sustenta

Pois, nessa tristeza, viverei sempre mal!

 

Oh! coração, tu me deixas aperreado!

Sem ar e com o meu corpo na pior...

Procuro uma saída, vivo agoniado...

Tenhas dó de mim, tenhas dó!!!

 

Oh! coração, não sejas tão sensível!

Senão, te troco por um de concreto

Porque a cada dia fica mais impossível

Amar alguém que não me quer por perto!

 

É muito desassossego e depressão

Pra uma pessoa seria e sentimental

Se apaixonar por tua causa, coração

Que ama demais e... e me deixa mal!

 

Olhas, coração, acaba com essa paixão

Já não aguento viver dessa forma brutal

É trágico viver confuso e na ilusão...

De está amando e sofrendo no geral!

 

Esquece quem não te amas...

E dá sossego para o meu corpo!

Acalmas tu também e não reclamas

Vamos sair logo, fugir desse sufoco!!!

 

*Leonildo Alves de Sousa é escritor, poeta, compositor e membro fundador da Academia de Letras de Imperatriz- Maranhão


FERNANDO ABREU, UM POETA ACIMA DA LÓGICA DA METALINGUAGEM

Recebi, no final de março, o livro Contra Todo Alegado Endurecimento do Coração, do Fernando Abreu. Foi publicado pela 7Letras e possui uma apresentação lindíssima feita (pela também poeta) Adriana Gama de Araújo que diz quase no final: “o poeta sabe que o custo da poesia é a própria vida e a comunicação com sua essência. Sabe do dilema de ir além da habilidade com as palavras”.

São trinta e seis poemas, revelando a cada página o sabor da vida. Tem o tempero do sonho, da aflição, da revolta, mas principalmente da ternura linguística. Não falta habilidade ao poeta, “vestido no jornalista e nas dores do cotidiano”.  Há muito tempo acompanho o trabalho de Fernando Abreu. Observo as reflexões profundas da poesia. As perguntas, na beira do precipício, a ironia sutil dos seus versos.

No entanto, chamou-me a atenção a capacidade de discutir a poesia, ao construir a referida antologia. Tem uma sequência de poemas metalinguísticos, reveladores da capacidade de Abreu teorizar sobre os sustos que moram nas palavras, como podemos ver no trecho do poema:  UMA POESIA PRODUZIDA PELA PROSA, na página 57:

[...]

tudo é possível em poesia, menos dizer alguma coisa

 

podem

chorar escondidos de si mesmos

fritar os amigos em alho & óleo

e palitar os dentes com ossos.

 

podem

correr em um campo incandescente

fustigados por anjos 7 demônios.

 

podem

abrir as vísceras dos críticos

e ler a cotação da bolsa literária.

 

podem

organizar recitais para si próprios

e gozar sobre o cadáver das palavras.

 

Não é silogismo simples. Quando o poeta amplia o olhar da poesia, mostrando a sua incapacidade de dizer. O grande silêncio, agregado, das revelações já bem dito pelo Ferreira Gullar, no livro Em Alguma parte Alguma, abre as portas do enunciado novo. Não dizer aqui é dizer mais. Mais atraente, mais insinuante.

O poema é um espaço de fala. Constrói uma cena narrativa extensa, depois de proibi-la. Transcender ao normalismo da linguagem é papel fundamental da poesia. Há mesmo uma relação dialógica entre a boca fechada e as palavras babando o chão do verbo.

Em POETA NA TV, página sessenta e um, Fernando Abreu parece falar justamente desse ser acima de todos os outros. É um manual de instrução, usando outro gênero textual, dedicado ao acadêmico Antonio Cícero:

[...]

grandes poetas

estarão sempre por aí

praticando sua magia

com pompa

ou descrição.

 

mas só em alguns

toda aparência

de grandeza

é descartável

senão descabida

(em vista do que está

por dentro).

 

É a receita da serenidade poética. Antonio Cícero tocou o nosso poeta em alguma entrevista, numa TV qualquer. Pouco importa a TV. O acontecimento está na poesia, nos gestos, na grandeza íntima.

A expressão “é descartável” ilumina o trecho citado. Logo, entendemos que a dimensão midiática não interessa ao reino das surpresas humanas. O lado de dentro atrai a luz divina. Usa a metalinguagem não apenas para destacar o próprio signo, mas tem a convicção plena do mestre de obra. Sabe acompanhar as etapas todas da construção da poesia.

Tenho certeza, Fernando Abreu comunga do pensamento de Albert Einstein: “ um raciocínio lógico pode me levar de A a B. A imaginação leva você a qualquer lugar”.

Encerro, com as mãos tentando decifrar mais do metadiscurso desta obra instigante, porque não podemos endurecer o coração.

 

 

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 29/06/2019

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

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