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Agora Santa Inês - CERZIR: O TOM ÉPICO DA POESIA DE ANTONIO AÍLTON

CERZIR: O TOM ÉPICO DA POESIA DE ANTONIO AÍLTON

“Acho que a épica voltará para nós. Creio que o poeta haverá de ser outra vez um fazedor. Quero dizer, contará uma história e também a cantará”. (Jorge Luis Borges)

Recebi o livro CERZIR do Antonio Aílton, em Caxias, no encontro de poetas contemporâneos do Maranhão, que aconteceu no Complexo da Balaiada. Comecei a leitura imediatamente. Uma agulha com muitas narrativas atravessou os meus olhos. Criei palavras para bordar ‘os girassóis do tempo’, a cada página.

    É uma reunião de poemas novos e poemas que constam em livros já publicados (anteriormente). A editora Penalux caprichou no trabalho gráfico. Ficou bem dividido. Muito bem costurado. Não aparece pontas sobrando, nem soltas. São cento e cinquenta e seis páginas de um trabalho, nos moldes experientes, de quem sabe unir, reconduzir, desfazer e refazer. O crítico literário, José Neres, afirma no posfácio: “em seus versos, o poeta jamais optou pela facilidade momentânea que possam transmitir a ilusão de que escrever poemas é algo fácil. Muito pelo contrário. Seus versos exigem esforço constante”.

    O leitor é desafiado. Não é fácil acompanhar os pontos. As idas e vindas no pensamento de Antonio Aílton. No entanto, percebo logo um tom épico que amplia a dicção do poeta, ao longo da roupa que o veste nestes cinquenta anos, de uma vida dedicada a construir sua própria voz.

    Jorge Luis Borges, premiado escritor e poeta, disse em Harvard, no ano de mil novecentos e sessenta e oito, durante uma palestra: “ser um fazedor é aproximar a voz do poeta à voz da história. É ser o cantor de um povo, de suas vidas, a par dos versos. Não quer ser maior ou menor que o lírico, mas que ser outro”.

    Isto que foi dito pelo argentino é visível na tessitura do Aílton. Está acima do eu. Não suporta o espetáculo do ego. Descarta o narcisismo do mundo contemporâneo. Abandona o lírico desbragado, tão desmoralizante, inclusive para alguns excelentes poetas. Corta a centralidade de si mesmo para ser outro, mais forte e ao mesmo tempo capaz de cantar uma narrativa profunda e humana.

    Em A Hora do Poema do Sol, tateamos o caráter novo atribuído ao épico na literatura brasileira desde Ferreira Gullar, Afonso Romano de Sant’ Ana, Geraldo Melo Mourão:

 

Quero saber

se o homem é

forma ou experiência

ou se cada realidade deste mundo

cada manhã.

 

é simplesmente a revisitação de um campo aberto

minado de palavras

“a manhã banha meu filho”

é uma fala improvável?

[...]

(AÍLTON, 2019, p. 113)

     Como se vê, o poema apresenta-se centrado ‘num externo outro’, quando vai para exposição diante dos raios da palavra. O tom é questionador desde o primeiro verso. O questionamento é inerente ao simbólico. A tentação de situar o histórico no particular faz parte do gênero de Homero. É claro que não temos a estrutura da épica clássica na poesia moderna, nem na poesia contemporânea, 

     O professor Anazildo Vasconcellos da Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos grandes especialistas da epopeia, fez palestra na Academia Brasileira de Letras (2012) com o tema: épicos brasileiros da contemporaneidade, afirmando: “a crítica decretou o fim da epopeia, baseada no estudo de Aristóteles, que examinou e definiu bem o corpus do gênero em estudo, na literatura grega. Não estudou a sua transformação ao longo da história. Eu o faço. Mostro aos interessados que as caraterísticas fundamentais permanecem em alguns discursos poéticos. A transcendência do maravilhoso faz-se necessária, a semiologia universal e o campo mitológico deve ser estimulado”.

     Tudo está na enunciação de Aíton. O hibridismo do eu-lírico-narrador é claro nas imagens desde a introdução do texto: “ a manhã banha meu filho. é uma fala provável ? ”.

     O filho é um deus cheio de poderes, capaz de apontar outros desenhos para o cotidiano desgastado pela liquidez, dos tempos de hoje:

 

[...]

 

enquanto simplesmente dou banho

nas carnes nascituras do meu filho

 

enquanto sinto a manhã estalando

nas palavras de serviço

acumuladas na casca da minha pele

 e acordo para a imprevisibilidade diluída

que escorre entre valas

e virilhas

seda a manhã

solitário solidão solitude

fisgo a terra em meu azougue – porque rondo

a dois passos de meus pássaros.

(AÍLTON, 209, p. 116)

    Preciso ressaltar a matéria da poética de Antonio Aílton. Sempre está dividido entre duas dimensões semióticas: a primeira é aparentemente lírica e a segunda assume sempre uma voz universal, com uma intenção narrativa, em cada nó: “enquanto simplesmente dou banho, nas carnes nascituras do meu filho”. A experiência mística vem em seguida: “e acordo para imprevisibilidade diluída que escorre entre valas e virilhas”.  Em poesia, místico é quem consegue o encontro pessoal com a revelação. A obra Cerzir é cheia desta elaboração literária, iluminada.

    Recuperar as utopias da vida é função dos filhos. Este tão real, ao passo que se faz simbólico, age na construção da liberdade de Aílton:

 

[...]

 

Deixo contigo durante a noite, filho

o dito que aprendi do velho Blake

em seus lúbricos provérbios

do céu

e do inferno:

 

“Conduz teu carro e teu arado

sobre o trilhado

dos mortos”.

 

(AÍLTON, 2019, p.122)

 

     Como podemos ver, são apresentados três tempos neste final arrebatador: presente, passado e futuro. O poeta reincide nas preocupações universais. Aliás, é o tom de outras partes, desta antologia comemorativa. Em a Incursão Fortuita de Ouroboros e Memória Mínima persiste o mesmo tom.

     Assim sendo, as discussões apresentadas aqui precisam ser aprofundadas, num trabalho de maior fôlego. Com esta leitura resumida, discorro para apontar os pontos do epos, na permanente poesia de Antonio Aílton. Finalizo com Octávio Paz: “o poema é uma obra inacabada, sempre disposta a ser completada por um leitor novo”. 

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.

 

PAULO RODRIGUES

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 27/07/2019

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Palavras-chave: CERZIR: O TOM ÉPICO DA POESIA DE ANTONIO AÍLTON

Fonte: PAULO RODRIGUES

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