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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

Prefácio do Livro “Forma Fácil e Prática de Enxugar Gelo” do escritor     José M. Soares Viana

Sexta, dia 09 de agosto, foi o lançamento do 9º livro do escritor José M. Soares Viana. O local escolhido para a noite de autógrafos, como não poderia deixar de ser, foi a “Associação dos Escritores Independentes do Maranhão” (AMEI). Desta vez, no entanto, o autor enveredou pelo universo dos contos. O livro intitulado: “Forma Fácil e prática de enxugar gelo” conquista os leitores pelo tom humorado com que José Viana relata os causos de família. A noite de autógrafos foi um sucesso de público. Hoje, o texto da minha página, será o prefácio que escrevi para o livro.

Meu pai desenvolveu seus dons poéticos e musicais desde muito cedo. A música veio primeiro porque seus irmãos tocavam sanfona e animavam as festas e feiras do interior do Maranhão. Ele, por ser o mais novo dos 6, tocava percussão para acompanhá-los. E, assim, ganhavam dinheiro para ajudar a família.

Aos 16 anos, já tocava seus primeiros acordes ao som do violão. Mas aos 18, quando começou a ler poetas românticos brasileiros como: Castro Alves, Álvares de Azevedo, Olavo Bilac, Fagundes Varela, dentre outros, passou a se interessar mais pela poesia. No entanto, foi a paixão nutrida pelo lirismo do poeta português Luiz Vaz de Camões que serviu de inspiração maior para desenvolver o seu dom. José Maria tinha a alma poética e a vocação fluía naturalmente sem grandes esforços, apesar de ser ainda muito jovem.

Os anos passaram e o inquieto José, como sempre fora um leitor curioso, enveredou também nas leituras dos romances e contos dos clássicos. Leu tudo que podia e tinha acesso àquela época em que os livros eram mais raros e caros. Principalmente, para quem, como ele, vivia no interior do Maranhão. No entanto, isso tudo não o impediu de ler de Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Guimarães Rosa ao escritor norte-americano Ernest Hemingway. Sempre que podia, ele economizava para comprar livros e foi, assim, através de muita leitura, que o menino transformou-se num homem escritor de romances. Muitos deles, desenvolvidos a partir desse universo das letras no qual sempre esteve imerso.

Hoje, aos 82 anos, o escritor decidiu enveredar por um novo gênero textual: o do conto. Texto narrativo curto centrado em um relato referente a um fato ou memória. Em rápidas linhas, sua origem remonta aos tempos antigos, representado pelas narrativas orais dos antigos povos nas noites de luar, narradas de pais para filhos, como forma de assegurar a transmissão da cultura e, dessa forma, a sobrevivência da espécie. O ato de contar histórias, portanto, remonta à épocas antigas dentre a história da humanidade.

O poeta, então, desafia-se neste momento da sua vida a ser mais conciso. Reinventa-se enquanto escritor. Já que o conto é um gênero aparentemente mais leve para quem, como ele, já estava acostumado com o ritmo das poesias e romances. Mas por outro lado, esse tipo de literatura requer uma grande flexibilidade, podendo se aproximar da poesia e da crônica. Portanto, José Viana, inteligentemente, usou ao seu favor essa característica.  E assim, buscou inspiração em sua própria história de vida. Momentos que aqui e acolá o fizeram ser quem é. Podemos dizer que este livro é também muito de suas memórias. Contos surgidos ao longo de sua vida em família e com os amigos os quais fizeram parte da sua existência até aqui.

Essas histórias de vida deram origem, portanto, a mais nova obra de José Maria intitulada “Forma Fácil e prática de enxugar gelo”. O pano de fundo dessas aventuras é, mais uma vez, a cidade de Santa Inês que assume, quase sempre, papel preponderante na vida do escritor. O amor pela terra adotada e as lembranças de família estão ali retratados com muito humor. A linguagem empregada pelo autor deu ritmo ao “tom” do texto. Enfim, vemos um José Maria diferente neste novo livro. Isso mostra o caráter versátil e as influências advindas de anos de leituras e da maturidade literária alcançada.

Parafraseando os versos do poeta Manoel de Barros, reafirmo que o escritor José M. Soares Viana, meu pai, nunca se contentou em fazer/ser um homem comum porque sempre teve talento para brincar com as palavras e fazer versos. "Não aguentou ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc, etc. Perdoai, mas ele sempre precisou ser Outros. Ele pensou renovar o homem usando borboletas." Essa obra encantará, sobremaneira, por sua beleza e simplicidade. Parabéns, meu pai! Boa leitura!!!

  #contos    #literatura   #autormaranhense   #prefácio  #Amei

  Georgiana Lima: Formada em Letras pela UFMA. Pós-graduada em Inglês pela Universidade do Alabama (BAMA U) e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Email para contato: [email protected] Instagram: @georlima_

MORTE DO LEITEIRO: POÉTICA E COMPREENSÃO DA LUTA DE CLASSES

“A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”

(Karl Marx)

O livro A Rosa do Povo foi publicado em mil novecentos e quarenta e cinco. A segunda guerra mundial derramava sangue e reflexão na poética de Carlos Drummond de Andrade, que tinha preparado bem o terreno da poesia política, em Sentimento do Mundo (1940).

São muitos poemas engajados com a revolução humana, tais como, Carta a Stalingrado, Telegrama de Moscou, Visão 1944 e Carta ao Homem do Povo Charlie Chaplin, neste último Drummond diz: “cheio de sugestões alimentícias, matas a fome/ dos que não foram chamados à ceia celeste ou industrial./ Há ossos, há pudins de gelatina e cereja e chocolates e nuvens/ nas dobras do teu casaco”. (São dois exemplos de seres modernos, crentes na construção de um mundo mais justo).

Morte do Leiteiro aparece entre O Elefante e Noite na Repartição. Numa geografia íntima, portanto. O poeta fala de si mesmo ao criar o elefante “qual mito desmontado./ amanhã recomeço”. Na repartição, o cotidiano é exaurido com angústia, racionalidade e deboche ao modo de um Oswald de Andrade.

Vamos ao texto. Não há espaço para rompantes de jovem, na construção social, do poeta de Itabira. É um trabalho maduro, organizado em blocos, catalisando rumores narrativos para dar um golpe, na exploração dos trabalhadores precários. Começa com o leiteiro apressado. Queria servir aos de classe média. Acreditava que era explorado, no entanto, contribuía:

 

Há pouco leite no país

é preciso entregá-lo cedo.

Há muita sede no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há no país uma legenda,

que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro

de madrugada com sua lata

sai correndo e distribuindo

leite bom para gente ruim.

Sua lata, suas garrafas,

seus sapatos de borracha

vão dizendo aos homens no sono

que alguém acordou cedinho

e veio do último subúrbio

trazer o leite mais frio

e mais alvo da melhor vaca

para todos criarem força

na luta brava da cidade.

 

Observe que o leite é bom e a gente é ruim. Numa tomada de posição desde o início do filme. O personagem caminha numa tela urbana, cheia de surpresas, contradições, repetições. O poeta reafirma a sua proximidade com o subúrbio, a pobreza, a honestidade deste homem, quase extinto. 

      Drummond assiste, ou cria o poema com grande capacidade inventiva. O leiteiro não o escuta. Repete a ação mecanicamente, todos os dias. É pobre, favelado, sem instrução e sem malandragem. Não percebe as armadilhas da propriedade, num país autorizado a matar os invisíveis, desde a fundação da colônia.

       Vejamos o próximo passo, desse ser abstrato, carregando um líquido branco num país escuro:

 

Na mão a garrafa branca

não tem tempo de dizer

as coisas que lhe atribuo

nem o moço leiteiro ignaro.

morador na Rua Namur,

empregado no entreposto

Com 21 anos de idade,

sabe lá o que seja impulso

de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo

vai deixando à beira das casas

uma pequena mercadoria.

 

E como a porta dos fundos

também escondesse gente

que aspira ao pouco de leite

disponível em nosso tempo,

avancemos por esse beco,

peguemos o corredor,

depositemos o litro...

Sem fazer barulho, é claro,

que barulho nada resolve.

 

Definitivamente a narrativa não fala de uma pessoa: “o corpo vai deixando a beira das casas uma pequena mercadoria”. O Sociólogo Jessé Souza diz que há uma guerra de classes entre nós. Nossa sociedade foi fundada na escravidão. Autorizada a matar, na calada da noite, os invisíveis.

     Pior, a estrofe seguinte mostra uma miséria maior que a do leiteiro: “e como a porta dos fundos, também escondesse gente, que aspira ao pouco de leite”. Não foi responsável pela tragédia, mas apresenta o contraste do Rio de Janeiro com camadas diferentes de extrema pobreza.

     O leiteiro é sutil, leve. Isto não é virtude para uma burguesia sanguinária, incapaz de pensar o país para todos. Tinha recessão, escassez de alimento, necessidade nas mãos, carência nos olhos:

Meu leiteiro tão sutil

de passo maneiro e leve,

antes desliza que marcha.

É certo que algum rumor

sempre se faz: passo errado,

vaso de flor no caminho,

cão latindo por princípio,

ou um gato quizilento.

E há sempre um senhor que acorda,

resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico

(ladrões infestam o bairro),

não quis saber de mais nada.

O revólver da gaveta

saltou para sua mão.

Ladrão? se pega com tiro.

Os tiros na madrugada

liquidaram meu leiteiro.

 

Se era noivo, se era virgem,

se era alegre, se era bom,

não sei,

é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono

de todo, e foge pra rua.

Meu Deus, matei um inocente.

Bala que mata gatuno

também serve pra furtar

a vida de nosso irmão.

 

     Lukács comenta em, História e Luta de Classes: “ a separação do produtor de seus produtos, a dissolução e desagregação de toda a produção, tornaram as relações humanas mais coisificadas, permitindo toda ação ao dono da propriedade”.   A luta de classes marca o poema. O poeta deixa muito explícito que a lei não chega no proprietário. Ele é defendido pela força do capital:

Quem quiser que chame médico,

polícia não bota a mão

neste filho de meu pai.

Está salva a propriedade.

A noite geral prossegue,

a manhã custa a chegar,

mas o leiteiro

estatelado, ao relento,

perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.

no ladrilho já sereno

escorre uma coisa espessa

que é leite, sangue... não sei

Por entre objetos confusos,

mal redimidos da noite,

duas cores se procuram,

suavemente se tocam,

amorosamente se enlaçam,

formando um terceiro tom

a que chamamos aurora.

 

Depois de salvar a propriedade, a noite geral prossegue. O leiteiro derrama-se em poesia para semear um novo dia. A revolução sonhada por Drummond não tem espaço entre nós, porque o proletariado vai morrer trabalhando, nunca terá tempo para lutar, amar, sonhar.

     Encerro com um verso do Murilo Mendes: “é triste a luta de classes”. 

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 17/08/2019

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
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