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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

Mi Rosario querido

Por Georgiana Lima

“Me gusta Rosario cuando llega el invierno. Cuando caen las primeras nevadas y por el Paraná bajan los grandes bloques de hielo. De chico, yo subía a la terraza de mi casa, me trepaba a un pilar y desde allí veía, entre algunos edificios, pedazos del río y el rayón verde de la isla. También divisaba los hielos, derivando aguas abajo de la misma forma que hacían los camalotes durante el verano.”(Roberto Fontanarrosa)

Semana passada não pude escrever neste espaço e confesso que isso me fez muita falta. Mas, em contrapartida, viajei para terras de nuestros hermanos argentinos onde participei do Congresso Latino- americano em educação. Ser professora também é isso: estar numa constante formação profissional. A sede do encontro foi a bela Rosario-Argentina. Cidade localizada 300km a noroeste da capital portenha, Buenos Aires. Apesar de ser a maior cidade da província de Santa Fé, Rosario é muito mais conhecida por ser a terra onde nasceu Che Guevara, Fito Páez e Lionel Messi. Todos cidadãos rosarinos muito amados pela população.

Mas, quando nos referimos à Argentina, logo vem à cabeça de todos o futebol e a enorme rivalidade com o Brasil. Obviamente, é inegável essa disputa que existe há décadas. No entanto, eu, que já visito esse país desde 2010 e estudei lá um longo período, passei a conhecer muito mais da cultura e do povo. Portanto, pude perceber que a disputa para por aqui. Porque, em sua grande maioria, los hermanos são muito hospitaleiros e gentis conosco. Sempre falam sobre as cidades brasileiras às quais visitaram e o quanto adoram conhecer nossas praias. Ademais, hoje, eles lamentam muito, não só a atual situação política pela qual passa seu próprio país, como também, o triste cenário brasileiro. Porém, por hora, vou deixá-los somente com uma pequena contribuição sobre a cidade de Rosario. E sobre escritores(escritoras) que ali viveram e deixaram um legado literário vivo de suas impressões sobre a cidade.

E, se Buenos Aires foi escrita por muitas penas enaltecendo seus tangos, suas gravuras, seus poemas, suas crônicas. Felizmente, não é a única cidade que inspirou escritores nacionais e internacionais. Alguns famosos autores como Roberto Arlt, Raymond Carver, Alfonsina Storni e Juan Carlos Onetti. E para não esquecer, é claro, Roberto Fontanarrosa, reverenciaram a boêmia Rosario em prosa e verso. Aliás, esses autores fazem parte do livro “Little Rosario Illustrated, da Editorial Municipal de Rosario. Um guia literário da cidade.             

No livro, eles nos deixam suas prazerosas notas sobre as terras santafesinas. A obra encantou-me tanto que a comprei de pronto, servindo-me de inspiração para escrever sobre essa cidade que tanto amo.

 

Não podemos descrever Rosario sem citarmos o seu mais famoso escritor e caturnista: Roberto Fontanarrosa (1944-2007). Dentre os mencionados, o único legitimamente rosarino. Ele passou toda sua vida na cidade santafesina, portanto, sua obra está impregnada pelo amor à sua terra natal. Onde termina Rosario e onde começa Fontanarrosa? Seria uma boa indagação para entendermos tão forte influência da cidade em seu trabalho. Digamos que percorrer Rosario é também caminhar pela obra de Fontanarrosa. O amor por sua Rosario está incorporado em todo seu trabalho. O porto, como para muitos, sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração para ele. Quando perguntado sobre o porquê de nunca ter saído da sua cidade natal, ele respondeu:

“De mí se dirá posiblemente que soy un escritor cómico, a lo sumo. Y será cierto. No me interesa demasiado la definición que se haga de mí. No aspiro al Nobel de Literatura. Yo me doy por muy bien pagado cuando alguien se me acerca y me dice: me cagué de risa con tu libro.”

  (Batendo um papo com o escritor Fontanarrosa no Bar “El Cairo”- Foto/Aldri Confessor- Ros -2019)

Assim, de maneira poética, nos deleitamos com muitos aspectos da cidade de Rosario destacados pelos escritores em suas obras e falas. Mas, é somente quando a visitamos que entendemos o porquê de tantas exaltações. O povo santafesino traz esse orgulho e esse amor por sua cidade. E, ao nos encontrar sempre perguntam: “- Qué te parece, Rosario?Estás disfrutando la ciudad?

Realmente, não há como não se encantar com a rica arquitetura europeia herdada dos seus colonizadores: franceses, ingleses e espanhóis. Tudo muito bem distribuído harmonicamente pelas calles (ruas). Isso sem falar dos inúmeros cafés encontrados a cada esquina. Assim, quando estamos cansados de andar, eles são paradas obrigatórias ao longo do dia. Maravilhosos cafés para todos os gostos. Acompanhados pelas famosas media lunas (dulces o salados) ou as exquisitas (deliciosas) empanadas ou o enorme carlitos, sanduiche típico da cozinha rosarina. Isso, sem falar dos vinhos...ah, los vinos!!! Pero, a culinária merece um capítulo em especial. Matérias virão futuramente, aguardem! Hasta luego,carinos!Mucha Salud!

#rosarioargentina #guialiterário #ciudaderica #escritores #literatura #prosa&verso #caminosderosario  #impressões

Georgiana Lima: Filha do casal José Maria Viana (escritor, compositor e músico) e Marly Viana (Professora por décadas em Santa Inês, formada em Letras pela UFMA. Pós-graduada em Inglês pela Universidade do Alabama (BAMA U) e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade Nacional de Rosario  (Argentina). Email para contato: [email protected] Instagram: @georlima_

 

“Vestígios

de pólvora nas palavras.

E quando há voz,

é a cicatriz que canta”.

(Salgado Maranhão)

 

Salgado Maranhão é filho de Caxias (MA), mas vive no Rio de Janeiro desde o ano de 1973. Fora publicado pela primeira vez na antologia Ebulição da Escrivatura (Civilização Brasileira, 1978). É autor de Aboio — ou saga do nordestino em busca da terra prometida (1984), O beijo da fera (1996) e Solo de gaveta (2005). Ganhou o prêmio Jabuti (com Mural de ventos, em 1999) e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2011, com A cor da palavra).

Lançou, em 2017, pela Editora 7 Letras, o livro A Sagração dos Lobos que reafirma a inventividade, a força da sua voz e a alta capacidade de preparar os sabores da linguagem.

Seus poemas foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, alemão, sueco, hebraico e o japonês. Como compositor, tem gravações e parcerias com grandes nomes da MPB, como Alcione, Ney Matogrosso, Dominguinhos, Paulinho da Viola, Ivan Lins e Elba Ramalho.

A primeira letra do Salgado a fazer sucesso nacional foi Caminhos de Sol, que ele próprio comenta na Revista Revestrés (em março de 2017): “Numa tarde ensolarada – tipicamente carioca – atendi ao telefonema do compositor Herman Torres, que me convocava, às pressas, para ir à sua casa ajudá-lo a compor uma canção a fim de reconquistar sua mulher, que tinha ido embora. Em 30 minutos nasceu “Caminhos de Sol”, que, milagrosamente, cumpriu sua missão. A música foi um sucesso absoluto na voz de Zizi Possi, e – mais tarde – com o grupo Yahoo virou tema da novela “A Viagem”, da TV Globo”.

Por incrível que pareça não irei abordar nenhum texto consagrado do poeta, ora estudado. Ele reúne poemas novos para organizar um novo trabalho. Coletei no Facebook, partilhado no dia 31 de julho de 2019, portanto muito recente, o poema “Tigres”:

 

Vejo que nos vês, agora.

 

Foram cinco séculos

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.

 

E continuamos. Lavados em nove águas,

com a branquíssima flor dos dentes para sorrir.

 

E morder!

 

A poesia do Salgado Maranhão nunca esqueceu o som de um reino chamado Congo. No Mapa da Tribo há um culto aos ancestrais, que nos chama para refletir sobre o universo da cultura afro-brasileira. Aliás, todo o tecer poético salgadiano incendeia a desobediência, de um bom capoeirista.   

Tigres não é um canto. É denúncia. Grito sufocando as correntes, enterradas no chão. No início, uma voz alforriada, esquece a mitologia e os orixás para despir a sociedade escravista, em nosso país:

 

Vejo que nos vês, agora.

Foram cinco séculos

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

 

Vivemos num país escravista desde o zero ano de sua fundação. Dominamos o tráfico de homens e mulheres negras. Sem piedade, o colonizador aprendeu a bater e humilhar os que foram arrancados da Costa da Guiné, da Costa da Angola e da Costa da Mina. Não tinham alma, dizia a Santa Igreja. Por isso, “os cinco duros séculos carregando fezes”. O poeta consegue, com um golpe, retirar o mito da democracia racial, entre nós.

Em seguida, Salgado Maranhão diz que nunca existiu solidariedade e irmandade com os homens afro-brasileiros. Relendo o discurso sociológico de Jessé Souza, pesquisador contemporâneo, autor de A Elite do Atraso da Escravidão a Bolsonaro encontro: “a condição de não humanidade dos escravos não permitia que eles acessassem algum direito ou tivessem participação social, portanto, a eles era renegado qualquer tipo de dignidade ou reconhecimento”.

Salgado segue a vigília:

 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.

 

Morreram mesmo, poeta, sem nome e sem promessas. O mais trágico é que continuam morrendo homens e mulheres negras (invisíveis). Pesquisa do Atlas da Violência 2018, ligado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que setenta e um por cento dos assassinados por ano são pretos. Há uma guerra de cor, entre nós.

O Prof. Doutor José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, disse em conferência que fez na Academia Brasileira de Letras (06/06/2019): “lutamos para tonar legal a cota de dez por cento de alunos negros nas universidades federais. Queríamos dar oportunidade intelectual aos nossos irmãos excluídos historicamente. Observem o seguinte aspecto. Só no Rio de Janeiro tivemos quatrocentos mandatos de segurança contra as cotas”.  A exclusão continua na perversão histórica, da república antidemocrática do Brasil.

 

Salgado Maranhão é universal. Um ser que ganha o mundo através da poesia. Mas nunca esqueceu os espaços de ‘ajuda mútua’ como meio para conquistar a liberdade.  Enfim, um tigre com flores nos dentes para sorrir e morder.

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 21/09/2019

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
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