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Agora Santa Inês - CAPITÃO AMAZÔNIA

CAPITÃO AMAZÔNIA

O macho alfa subiu na árvore e convocou o seu exército para marchar e guerrear contra o resto do planeta. Foi ovacionado pelos gritos de guerra que ecoaram no cipoal das redes sociais  verde e amarelas. Desde a década de 1840, e ainda bem antes, franceses, ingleses e norte-americanos tentam colonizar a América do Sul, com foco naquilo que a geopolítica chama de espaço vital. Os norte-americanos chegaram a ter um ambicioso projeto hidroviário que unia o Rio Amazonas ao Rio da Prata. Pedro II e, principalmente, a competente diplomacia do Império chefiada por seu mais longevo chanceler, Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai, ganharam a batalha da soberania brasileira sobre a totalidade do seu território herdado de Portugal.

A tática era sempre a mesma: dividir e corromper os governantes dos países amazônicos para isolar o renitente Império do Brasil. Os liberais, almofadinhas da aristocracia e burguesia urbana, fascinados com o progresso industrial e mercantil da jovem República norte-americana não achavam uma má ideia a colonização. Tavares Basto foi um arauto do modelo norte-americano e defendeu a livre navegação internacional do Rio Amazonas . Os conservadores preferiram criar uma infraestrutura nacional e incentivar a sua própria indústria de navegação e de comércio na Região amazônica. Pedro II atendeu às ponderações do seu chanceler, Paulino, e subsidiou o empreendimento privado do Barão de Mauá, convencido a entrar nessa empreitada pioneira por noites e noites de conversas na varanda da casa do futuro Visconde do Uruguai, na sala da sua casa, no Rio de Janeiro. Nunca pararam.

Nos anos 80 do século vinte, depois dos fracassados empreendimentos norte-americanos da Fordlândia e do magnata Ludwig na Amazônia, mudaram a estratégia para criação de um futuro condomínio internacional para preservar o “pulmão do mundo” e o “patrimônio da humanidade”. A Amazônia brasileira passou a ser a decantada “Rain Forest”, que virou estampa de camisetas e lanchonetes nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Toda uma geração europeia foi bombardeada com filmes, livros e revistas sobre a destruição da “Rain Forest” no Brasil. O foco foi sempre no Brasil. Foi na década de 1980 que o Cacique Raoni começou a frequentar os gabinetes dourado do Palácio do Eliseu, sede da Presidência da República, em Paris. Lembro de uma cena em que Raoni passeava com seus cicerones no Boulevard Saint Germain e um pintor de paredes que estava no topo de uma escada pintando ao olhar para baixo surpreso com aquele ser exótico caiu da escada.

Antes, no século XVI, espécimes humanos da Amazônia já haviam sido levados ao porto negreiro de Nantes, para exibições públicas. Montaigne faz o relato em seus ensaios. A nossa diplomacia conseguiu reverter toda essa campanha midiática dos anos 80, com um dos maiores feitos da história do Itamaraty. A Eco-92, no Governo de Fernando Collor, que soube compreender as razões de Estado da inciativa brasileira.

Foi o Itamaraty quem passou a liderar a diplomacia ambiental no mundo a partir daquele evento histórico. Não disparando arcos e flechas ou usando tacapes para se mostrar no palco político interno, mas para defender, com argumentos e ações, o seu pleno direito à soberania sobre a parte da Amazônia que lhe cabe.

No mesmo dia em que o Presidente Bolsonaro fez o seu contundente discurso na ONU defendendo nossa soberania na Amazônia brasileira, o Ministério da Defesa fez uma apresentação da Operação Verde, realizada em agosto e setembro de 2019, para debelar incêndios e combater a criminalidade ambiental da Amazônia. Foi um trabalho hercúleo dos nossos militares, soldados e bombeiros, que trabalharam noite e dia. Não mereceram uma só palavra no discurso do nosso Presidente. Os europeus ficam alardeando para suas opiniões pública que vão “doar” 500 milhões de euros para salvar a Amazônia. O STF, a pedido do executivo, destina dois bilhões de reais para ações governamentais na Amazônia. Nem uma única palavra sobre o assunto no discurso do Presidente na principal vitrine mundial, as Nações Unidas. Afinal, o que está acontecendo com a diplomacia profissional do Brasil? Não tem voz ou não tem mais a percepção do que seja o jogo diplomático.

Até parece que dispomos de um arsenal nuclear para enveredar pelo discurso do porrete e da guerra, o que só faz corroborar a impressão generalizada na Europa Ocidental e nos Estados Unidos sobre o “perigo brasileiro” na Amazônia. Pode ser bom para o “bolsonarismo”, mas é péssimo para o Brasil.

*Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata.

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 28/09/2019

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Palavras-chave: CAPITÃO AMAZÔNIA

Fonte: Miguel Gustavo de Paiva Torres é diplomata

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