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Agora Santa Inês - CARNAL: EROS DAS ERAS

CARNAL: EROS DAS ERAS

“Ancorar na barra da tua saia, escalar tuas coxas e me aninhar na gruta de Vênus”.

(Nílson Cordeiro Ferreira)

Comprei a antologia Eros das Eras, organizada por Algemira de Macêdo Mendes, Fabio Mario da Silva e Marleide Lins de Albuquerque. Um trabalho perfeito com a marca da Avant Garde Edições, 2019. Projeto gráfico belíssimo. Conquista pela beleza estética e pela maciez da pele dos poemas.

Poetas como Paul Verlaine, Olga Savary, Ernesto Moamba, Evilásio Júnior, Maria Tereza Horta e Luiza Cantanhêde entortam o arco do desejo. Atiram o sêmen das revelações. Alisam as palavras que olham de canto de olho como se namorassem o leitor.

Uma homenagem a Safo abre a obra. É um toque revolucionário para estes tempos de fascismos, cheios de proibições e fogueiras públicas. A poeta da ilha de Lesbos viveu com independência, descartando o protótipo das mulheres de Atenas. “Amou e odiou como toda gente”, diria Fernando Pessoa.

A sacralidade do corpo é tema de muitos textos. A cegueira, os abismos, as ausências também. É uma reunião de grandes cultores do tato humano. Eles conseguem separar erotismo de pornografia, numa lição explícita de Roland Barthes.

Destaco neste início de análise, um trecho do poema (Joelho) de Maria Tereza Horta:

 

Ponho um beijo

demorado

no topo do teu joelho.

Desço-te a perna

arrastando

a saliva pelo meio.

Onde a língua

segue o trilho

até onde vai o beijo.

Não há nada

que disfarce

de ti aquilo que vejo.

[...]

 

      As metáforas de Horta são um arco-íris dançando no final da tarde. Ela consegue movimentar a presença de Eros como se fosse apenas uma sombra. Parece as sinestesias simbolistas explodindo, baixo, no pé da cama.

O texto é longo. Arranco essa mordida-beijo inicial para deixar o carimbo desta autora premiada por muitas qualidades artísticas. Uma mulher capaz de conduzir os sonhos e os desejos do verbo.

Na mesma fome de sangue, leio o poema (Carnal) de Luiza Cantanhêde:

 

Te quero

bicho no cio

loucura inexata

sangue no olhar

de quem lambe os lábios.

Carne pulsante

alterando o destino

te quero flor

carpindo o caminho.

Terra devota

em mim refletida.

Te quero assim:

persona caótica

entre a vertigem

e o êxtase.

 

Luiza esquece o erro do amorpaixão. Entrega-se aos desejos do que pulsa nos olhos. Tem sangue nas pupilas. Saliva no verso. Terras devotas, que fertilizam a flecha. Consegue penetrar fundo o erotismo, até chegar ao Ponto G: “te quero assim/ prensona caótica/ entre a vertigem/ e o êxtase”.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 10/10/2019

Visitas: 130

Palavras-chave: CARNAL: EROS DAS ERAS

Fonte: PAULO RODRIGUES

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