• Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

Escutar, respirar, escrever...

Para mim, escrever é respirar. É lutar e resistir. Escrevo para sair da mesmice. Para sobreviver em meio ao caos. A mulher que sou hoje brotou das minhas primeiras experiências com os relatos na infância. De muito escutar aqui e acolá, formei uma caixa de dados na memória. E são essas histórias que fizeram-me ser que sou hoje.

Por Georgiana Lima

Outro dia li um texto muito interessante em que o autor dizia que, por ser tímido, sempre fora "parabólica de escutas involuntárias". Adorei essa expressão, visto que, também me encaixo nesse perfil. Pois fui uma criança e adolescente tímida. Eu sempre escutei mais que falei. Talvez por isso mesmo, eu considere escutar uma arte, um ato sagrado. E isso, de certa maneira, me fez desenvolver muito mais a minha criatividade. Eu era quieta, mas minha mente fervilhava. Ouvia atenta e, curiosamente, aquilo rapidamente transformava-se em história na minha mente.

  E foi assim, revendo minha trajetória de vida, que eu percebi nitidamente que a arte de escutar foi a grande responsável por fazer-me escrever. Porque foi esse elo de aproximação da palavra através da escuta, o meu primeiro contato com as letras. Explicando melhor, digo que os pequenos detalhes da vida só são perceptíveis a quem sabe escutar. "Toda escuta é, potencialmente, uma concepção, um parto, um nascimento", diz o escritor Renato Essenfelder.

Em “A arte de saber escutar”, Carla Faour relata que: “Escuta-se com as mãos, com os olhos, com a respiração, escuta-se inclusive com os ouvidos… Uma postura escuta, um gesto escuta, a boca escuta”. Ela termina concluindo que não é a fala que distingue o ser humano dos outros animais. E, sim, saber escutar é o que nos dá humanidade. Eu corroboro plenamente com ela. Porque Escutar predispõe ter compaixão e esta característica está em perigo de extinção em nosso mundo. Todo mundo opina. Todo mundo entende tudo. As redes sociais estão cheias de pessoas que são “expert” em qualquer assunto.

 Para além disso, a arte de escutar também é saber silenciar. Mas não confundam isso com o que fazem os psicólogos, os terapeutas, psicanalistas, nada disso. Muitas das vezes eu pouco falo nessas horas. E nem saberia ser uma profissional para tanto. Mas, as pessoas às quais ouço, também não querem uma cura para nada; o meu caso está mais próximo, portanto, é de escutatória. O meu caso é incurável, ainda bem.

Pois são justamente esses pormenores das histórias de vida contados com lirismo, que quase ninguém vê, os responsáveis pelas inúmeras belas crônicas mundo afora. A escritora e jornalista gaúcha Eliane Brum diz que muito antes de saber ler, ela já escutava. Na infância, a escritora pegava um banquinho e ficava próxima de quem falava. Eu a considero, hoje, uma das nossas melhores cronistas. Porque ela consegue com maestria transformar relatos de "vidas comuns” em histórias extraordinárias captando toda a sua perplexidade.  E por isso mesmo, Eliane entrou na lista das dez indicadas para o Prêmio Nacional de Literatura dos EUA (National Book Award) deste ano.

    Quanto a mim, a menina tímida transformou-se numa adulta que, indo contra a maré atual da pós-modernidade, em tempos em que pouco escuta-se e muito fala-se, continua, digamos, economizando as palavras. E, assim, sigo apurando muito mais as escutas. Sim, eu continuo aqui escrevendo para existir/resistir. Não sou mais tão tímida quando antes, digamos que eu seja o que Clarice categoriza como “a tímida ousada”. Pois é desse modo que consigo ouvir tantas histórias envolventes até hoje.

Contudo, muitos desses relatos são tristes. Especificamente as que escuto pelas estradas do meu Maranhão; são necessidades palpáveis às quais eu até gostaria que fossem só conversas jogadas fora. Ou melhor, que fossem “flores que a imaginação faz crescer no lugar da dor”, como Rubem Braga profere. Muitas vezes eu só quero fazer isso mesmo: transformar o real em imaginário.

São tantas personagens, nomes, lugares, apelos, apertos, risos, falas... a conversa, assim, flui naturalmente. Pode ser embaixo de uma árvore, na porta de uma casa, sentados naquelas cadeiras de macarrão, tomando banho numa nascente bem limpinha. Ou enquanto fazem farinha (cheirinho fresco da farinha no ar); às vezes, é numa área quilombola. Outras, entre os índios Guajajara. Noutras, com as quebradeiras de coco. No Maranhão, não faltam cenários! São tecidos enredos extraordinários ali em meio à natureza. Sem censura e sem frescura. Sabendo que daqui a pouco eu nem mais estarei entre eles, todos ficam mais soltos.

As escutas na beira do rio são as melhores porque ali as mulheres lavam roupas, falam, esperam e contam histórias lindas! É nessa dura lida que também elas riem, tagarelam umas com as outras e cantam. As crianças brincam ao redor. A cachorrada faz a festa. E eu lá no meio dessa riqueza toda. No primeiro momento, elas ficam curiosos para saber quem somos. Mas logo depois se acostumam e tecem longas história, sem necessidade de perguntarmos nada. Só querem ser ouvidas. Mas é caminhando pelas ruas que eu cruzo com os acontecimentos mais inusitados.

E foi assim que conheci Ana (da foto) numa dessas minhas viagens pelo Maranhão. Era um pequeno povoado do município de Belágua (um dos mais pobres do Maranhão segundo IBGE). Ela me impressionou muito, não só pela leveza de sua alma, mas também, pela consciência política do seu discurso. Uma verdadeira filósofa natural. Grande mulher a Ana!

Lembro que o dia estava muito quente, abafado. Eu de sobrinha. Ela, meio que escondida na porta de casa, veio conferir quem eram aqueles dois “estrangeiros”. O fotógrafo Geraldo Kosinski vinha logo atrás com duas câmeras prontinhas para qualquer grande cena do cotidiano maranhense. Eu tentando proteger-me do mormaço da rua. Ela, curiosa, ofereceu-me água. E foi assim que ele nos pegou de surpresa e nos fotografou. Porque, entretidas, nem percebemos que ele tinha feito esse registro que ficou tão lindo: duas mulheres, o momento, o riso tímido, a bela casa colorida da Ana... e mais uma incrível história guardada na memória. Mas que, graças ao Geraldo, também lindamente registrada.

Quando olhei essa foto, logo me veio à memória, não somente aquele dia, mas também a menininha tímida que fui. E sorri, agradecendo ao fato de não ter conseguido extirpar da minha essência o sustentáculo que me fez ser quem sou hoje. Clarice Lispector está certa ao dizer: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

#artedeescutar #históriasdevida #memórias #caminhosdoMaranhão #sustentáculos #experiênciasdevida

Georgiana Lima: Formada em Letras pela UFMA. Pós-graduada em Inglês pela Universidade do Alabama (BAMA U) e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade Nacional de Rosario  (ARG). Email para contato: [email protected] Instagram: @georlima_

EMOÇÕES E REAÇÕES


Não sei como reagir a tantas emoções

Muitas me fazem descer lágrimas,

Outras sorrir de orelha a orelha,

E há àquelas, que como verdadeiros bordões

 

Me iludem no dia a dia da vida

Curam misteriosas e doídas feridas,

Me animam a conversar, cá com meus botões

E até a viver dias alegres, e noites entristecidas

 

Fácil lidar com emoções de um quase nada?

Ledo engano! Mesmo sendo uma singela parada

No fundo do tempo, um tropeço, uma topada

 

Um elogio ou um comentário insensato,

Pode me levar a uma reação emotiva

Que tanto me fará sorrir ou chorar

 

Ou pode ser que tão “inexpressiva” emoção

Me faça chorar de tanto sorrir

Ou me faça sorrir de tanto chorar,  até rolar pelo chão.

 

Clélio Silveira Filho é Jornalista, Escritor, Compositor e Poeta, Editor desta página de Literatura e membro fundador da Academia de Letras de Santa Inês.

SOU


Sou um pássaro que teme altura

Um gato que adora banho

Na família sou estranho

Do vapor sou a parte dura

Sou o lucro do corrupto mercador

Do alfabeto sou a letra muda

Na plateia sou a parte surda

Um ser sensível que adora a dor

Sou o feto que não vai nascer

Um mendigo que rejeita pão

Sou o casal que não tem tesão

E o jogador que só quer perder

Sou uma vida vil e Severina

O santo que não espalha amor

De todos os vícios sou o torpor

Sou que mata a sede na urina

Sou a pedofilia do religioso

O calendário que só marca a morte

Sou o puro azar dentro da sorte

Entre as verdades sou o mentiroso

Sou o espinho que perdeu a flor

A parte mais dolorida do aborto

Um sonho lindo que já nasceu morto

O preconceito que semeia a dor

Sou o relógio que não marca o tempo

A igreja que só pensa em grana

O espelho que o reflexo engana

Um redemoinho que não tem mais vento

Sou a solidão em toda a companhia

A poesia que não tem afeto

O horizonte que se vê de perto

Do passado sou a melancolia

Sou a total cegueira da retina

O prazer que vem da cicatriz

Na vida estou por um triz

Escondido entre as coxas da menina

Sou a mudez do grande orador

O câncer que a muitos mata

A mão do amigo que maltrata

E o coração que não quer o amor

Sou a tola intolerância da maioria

O homofóbico que adora os gays

Nasci sob o signo seis seis seis

Nos funerais sou a alegria

Sou a corrupção que corre na veia

O desatino de quem se diz racional

Sou o útero estéril de todo anima

E o Natal que não vai ter ceia

De todos os olhares sou o puro desdém

Entre os narcisos sou o horroroso

Sou tudo isso: um ser espantoso

Sou você e os outros e não sou ninguém

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 26/10/2019

Visitas: 34

Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
5361498 visitas no Portal www.agorasantaines.com.br hoje 19 do mês 11 de 2019