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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

É verdade, os livros têm alma!!


Por Georgiana Lima

“Fitando as letras da capa e tocando o texto impresso na parte interna, ela não fazia a menor ideia do que o livro dizia. A questão é que o assunto do livro não tinha mesmo importância. O mais importante era o que ele significava.” (A Menina que roubava livros)

O autor argentino Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginava o paraíso como um tipo de biblioteca. Essa é a definição mais perfeita para quem ama os livros. Eu, ultimamente, tenho passado boa parte do meu tempo livre organizando esse paraíso da casa: nossa biblioteca.

Pois, com a mudança dos meus pais para a ilha, vieram juntos, todos os livros colecionados ao longo dos seus 83 anos. Tarefa complicada para uma professora de literatura. Difícil porque nem sempre sou racional. Digamos que eu seja uma pessoa à qual se desfaz facilmente de roupas, sapatos ... adoro doar o que não me serve mais. Mas tenho muita dificuldade em fazer o mesmo com os livros. Isso tudo se deve ao fato de estabelecer uma memória afetiva com eles. Eu acredito que os livros tenham alma.

Desde muito cedo creio nisso. Essa convicção começou na infância, quando eu simplesmente invadia a biblioteca dos meus pais, sorrateiramente, para pegar o livro mais próximo ao qual minhas mãozinhas miúdas alcançavam. Eu mal havia aprendido a ler. Mas já era muito curiosa à respeito desse lugar mágico em que meu pai passava boa parte do tempo livre. Isto é, quando ele não estava às voltas com seu violão.

 O quarto dos livros não era propriamente uma biblioteca. Mas lá havia muitos discos, fitas cassetes, jornais, revistas etc. Tudo isso arrumados numa estante feita de pau-d’arco grande e muito pesada. Esse quarto tinha cheiro de livros e óleo de peroba. Incrível como os cheiros me fazem voltar no tempo... aliás, eu ainda vejo a estante brilhar de tanto óleo de peroba. Os livros, em particular, estavam arrumados na parte mais alta do móvel. Para meu azar. No entanto, eu sempre dava um jeitinho de pegá-los quando queria. Minha hora preferida, óbvio, era à noite. Família grande. Casa sempre cheia de parentes. Não havia outra maneira de ler sem ser vista.

 E foi justamente numa noite dessas que abanquei o livro “Catástrofes, Desastres e Aventuras Que Comoveram o Mundo”. Não lembro mais o nome do autor. Mas era um livro pequeno e pesado.Com mais de 500 páginas. Mesmo assim, o peguei. Consegui me equilibrar sem cair subindo num banco. Eu consigo ouvir minha voz de criança lendo alto o título com a vozinha meio rouca soletrando sem acentuar a sílaba certa “catastrofes”. Passei um bom tempo lendo a palavra errada. Não sei bem o porquê, mas fui logo para a última história. Até hoje sou assim, se não é romance, não tenho por que seguir uma ordem certinha.

O relato era sobre a queda de um avião da Força Aérea do Uruguai, em 1972, numa remota região dos Andes. Estavam a bordo 45 pessoas que viajavam de Montevidéu para Santiago, no Chile, entre elas um time de jogadores de rúgbi. Havia cinco tripulantes. A aeronave chocou-se com os Andes e caiu. Somente 16 deles sobreviveram. Foram 72 dias em que ficaram isolados na montanha. O grupo que conseguiu manter-se vivo o fez alimentando-se da carne de seus companheiros mortos.

 É, não era bem o livro adequada à uma criança. O relato era assustador. Triste. Até hoje essa história me deixa assustada e fascinada ao mesmo tempo. Mas meus pais não sabiam dessas minhas aventuras clandestinas, obviamente. Li e reli essa história várias vezes. Na minha cabeça infantil, eu, de alguma forma tentava reconstruir outra versão para esse desastre. Um final feliz para todos eles. Ao fechar as páginas do livro, já na minha cama, compartilhada com minhas irmãs, o enredo era outro. Todos eles eram achados logo nos primeiros dias e voltavam para casa sãos e salvos. Foram necessárias várias tentativas e várias noite imaginando novos desfechos felizes.

Por muito tempo, andei com esse livro pela casa de tão impressionada com os relatos reais. Até que um dia, numa viagem de ônibus com minha mãe para Caxias, esqueci-o no assento. Chorei. Minha mãe disse que compraria outro igual para mim. Mas eu, mesmo muito menina, já sabia que não seria o mesmo. Assim, fiquei sem ler todas as catástrofes. Talvez tenha sido melhor assim.

Então, voltando à organização da biblioteca, tive que fazer uma seleção bem enxuta das obras literárias às quais poderíamos ficar. Já não dispomos da enorme estante de pau d’arco. Casa menor na ilha. Espaço reduzido. O que fazer? Bem, a minha seleção foi criteriosa e dolorosa. São livros, na sua maioria, daquela minha infância de menina curiosa que subia no banco para ler. Os títulos são todos familiares. É, revirar o baú do passado nem sempre é fácil.  Ao segurar um livro, passo um tempo pensando o quanto aqueles anos foram mágicos...até que me deparo com a coleção enorme de “Memórias de Casanova”. Toda vermelha com letras douradas. São 12 livros ao todo.

 Essa obra estava no ponto mais alto da estante do meu pai. Era a biografia de Giacomo Casanova, artista, escritor, aventureiro, libertino e sedutor. Um célebre conquistador italiano do século XVIII. Outro livro inadequado para crianças. Mas que, na minha inocência, eu só tinha 9 anos, muita coisa não era compreendida. Eu simplesmente amava essa coleção. Nem precisa dizer que ela ficou em casa. Está devidamente guardada. Agora, em outra estante, ao alcance das minhas mãos.

 Mas, as pilhas separadas para doar à biblioteca de Alcântara foram crescendo, à medida que tive que ser mais rigorosa. Encontro na pilha separada “Sousândrade Inéditos” (1ª versão de 1970). Essa obra do autor maranhense, tão pouco conhecido ainda, está com o autógrafo do escritor Jomar Moraes na contracapa. Dedicatória dele para meu pai. Folhei-o. Leio essa poesia escrita em Paris- 1855.

Borboleta e Raio do Sol

Da selva frondosa

Na sombra acordou

Gentil pousalousa

Centelha, voou.

E as aves trinaram

E a brisa correu

E as ondas rolaram

De azul como céu:

Que doce harmonia!

Que amena soidão

Raiando do dia

A luz! E a visão

Do sol, que aparece

Dentre oiro e rubi,

Dos montes, e desce

Dos vales. Eu vi...

 

 Definitivamente, não, decido. Sousandrade, fica! Próximo livro: “Os Lusíadas” de Camões. Parece que vislumbro meu pai na nossa antiga casa. Ele gostava muito de ler Camões. Aprendeu lendo os clássicos. Comprou essa versão quando ainda era rapaz, penso. Seguro, então, nas mãos. A capa antiga com muitas marcas dos anos. Esse vai para as mãos de quem ainda não o leu. Decido, não sem sentir uma dorzinha no peito.

De vez em quando, Seu José passa pela sala. Olha os livros. Não diz nada. Os olhos, no entanto, falam mais que as palavras. Difícil tarefa essa. Mas consigo completá-la. Lá fora chove forte na ilha. Minha cadelinha quer colo. São quase 8 da noite. Restaram várias caixas espalhadas de livros pela casa, só esperando os novos donos. Novas estantes. E, quem sabe, outras menininhas, que, como eu, sejam bastante curiosas. Torço para que sejam tão curiosas e criativas ao ponto de acharem que os livros têm alma.

 

#livros #biblioteca #alma #memórias #infância #clássicos

Georgiana Lima: Formada em Letras pela UFMA. Pós-graduada em Inglês pela Universidade do Alabama (BAMA U) e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade Nacional de Rosario (Argentina). Email para contato: [email protected] Instagram: @georlima_

SALGADO MARANHÃO E A CICATRIZ DA POESIA DO SÉCULO XXI


PAULO RODRIGUES

 

“Vestígios de pólvora nas palavras.

E quando há voz, é a cicatriz que canta”.

(Salgado Maranhão) Salgado Maranhão é filho de Caxias (MA), mas vive no Rio de Janeiro desde o ano de 1973. Fora publicado pela primeira vez na antologia Ebulição da Escrivatura (Civilização Brasileira, 1978). É autor de Aboio — ou saga do nordestino em busca da terra prometida (1984), O beijo da fera (1996) e Solo de gaveta (2005). Ganhou o prêmio Jabuti (com Mural de ventos, em 1999) e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2011, com A cor da palavra).

Lançou, em 2017, pela Editora 7 Letras, o livro A Sagração dos Lobos que reafirma a inventividade, a força da sua voz e a alta capacidade de preparar os sabores da linguagem.

Seus poemas foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, alemão, sueco, hebraico e o japonês. Como compositor, tem gravações e parcerias com grandes nomes da MPB, como Alcione, Ney Matogrosso, Dominguinhos, Paulinho da Viola, Ivan Lins e Elba Ramalho.

A primeira letra do Salgado a fazer sucesso nacional foi Caminhos de Sol, que ele próprio comenta na Revista Revestrés (em março de 2017): “Numa tarde ensolarada – tipicamente carioca – atendi ao telefonema do compositor Herman Torres, que me convocava, às pressas, para ir à sua casa ajudá-lo a compor uma canção a fim de reconquistar sua mulher, que tinha ido embora. Em 30 minutos nasceu “Caminhos de Sol”, que, milagrosamente, cumpriu sua missão. A música foi um sucesso absoluto na voz de Zizi Possi, e – mais tarde – com o grupo Yahoo virou tema da novela “A Viagem”, da TV Globo”.

Por incrível que pareça não irei abordar nenhum texto consagrado do poeta, ora estudado. Ele reúne poemas novos para organizar um novo trabalho. Coletei no Facebook, partilhado no dia 31 de julho de 2019, portanto muito recente, o poema “Tigres”:

 

Vejo que nos vês, agora.

 

Foram cinco séculos

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.

 

E continuamos. Lavados em nove águas,

com a branquíssima flor dos dentes para sorrir.

 

E morder!

 

A poesia do Salgado Maranhão nunca esqueceu o som de um reino chamado Congo. No Mapa da Tribo há um culto aos ancestrais, que nos chama para refletir sobre o universo da cultura afro-brasileira. Aliás, todo o tecer poético salgadiano incendeia a desobediência, de um bom capoeirista.   

Tigres não é um canto. É denúncia. Grito sufocando as correntes, enterradas no chão. No início, uma voz alforriada, esquece a mitologia e os orixás para despir a sociedade escravista, em nosso país:

 

Vejo que nos vês, agora.

 

Foram cinco séculos

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

 

Vivemos num país escravista desde o zero ano de sua fundação. Dominamos o tráfico de homens e mulheres negras. Sem piedade, o colonizador aprendeu a bater e humilhar os que foram arrancados da Costa da Guiné, da Costa da Angola e da Costa da Mina. Não tinham alma, dizia a Santa Igreja. Por isso, “os cinco duros séculos carregando fezes”. O poeta consegue, com um golpe, retirar o mito da democracia racial, entre nós.

Em seguida, Salgado Maranhão diz que nunca existiu solidariedade e irmandade com os homens afro-brasileiros. Relendo o discurso sociológico de Jessé Souza, pesquisador contemporâneo, autor de A Elite do Atraso da Escravidão a Bolsonaro encontro: “a condição de não humanidade dos escravos não permitia que eles acessassem algum direito ou tivessem participação social, portanto, a eles era renegado qualquer tipo de dignidade ou reconhecimento”.

Salgado segue a vigília:

 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.

 

Morreram mesmo, poeta, sem nome e sem promessas. O mais trágico é que continuam morrendo homens e mulheres negras (invisíveis). Pesquisa do Atlas da Violência 2018, ligado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que setenta e um por cento dos assassinados por ano são pretos. Há uma guerra de cor, entre nós.

O Prof. Doutor José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, disse em conferência que fez na Academia Brasileira de Letras (06/06/2019): “lutamos para tonar legal a cota de dez por cento de alunos negros nas universidades federais. Queríamos dar oportunidade intelectual aos nossos irmãos excluídos historicamente. Observem o seguinte aspecto. Só no Rio de Janeiro tivemos quatrocentos mandatos de segurança contra as cotas”.  A exclusão continua na perversão histórica, da república antidemocrática do Brasil.

Salgado Maranhão é universal. Um ser que ganha o mundo através da poesia. Mas nunca esqueceu os espaços de ‘ajuda mútua’ como meio para conquistar a liberdade.  Enfim, um tigre com flores nos dentes para sorrir e morder.

 

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.   

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 01/02/2020

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
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