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Agora Santa Inês - LITERATURA LITERALMENTE

LITERATURA LITERALMENTE

BABAÇU LÂMINA: A CONCIÊNCIA POÉTICA DE CLARISSA MACEDO E LUIZA CANTANHÊDE

“A poesia quando chega não respeita nada”.

(Ferreira Gullar)

 

Logo após a prisão do sargento Manoel Silva Rodrigues, da Força Aérea Brasileira (FAB), com trinta e nove quilos de cocaína num avião da comitiva presidencial. O poeta Carvalho Junior iniciou um movimento reflexivo sobre a materialidade histórica da poesia. Muitos autores de várias partes da nação conectaram-se.

Uma produção foi captada para a antologia: Babaçu Lâmina. “Não estávamos alegres, mas porque razão haveríamos de ficar tristes”, nos ensinou o poeta da Revolução Russa. O Certo é que enfrentar a história com a coragem de um quilombola foi a grande lição da reunião.

São trinta e nove vozes de um punhal só. Num trabalho editorial da Patuá (2019). Apresenta gravuras originais do poeta e crítico literário Ricardo Nonato, que prefaciou a compilação. Já finalizando o texto, ele afirma: “a poesia, portanto, de modo agudo e na sua diversidade, apresenta-se como lâmina, mas sem ignorar as possibilidades deste fruto opaco que guarda tantos sentidos e segredos de vivência”.

Tenho passeado por estas lâminas e percebo a riqueza dos detalhes no corte da carne. Dedico-me neste momento a análise de duas poetas fundamentais na coletânea: Clarissa Macedo e Luiza Cantanhêde.

A primeira é doutora em Literatura e Cultura, professora, poeta de muitas ações (no cotidiano das manhãs). Ganhou o prêmio nacional da Academia de Letras da Bahia em 2014 com o livro Na Pata do Cavalo Há Sete Abismos. Tem lugar de destaque na poesia contemporânea produzida no Brasil.   

Vamos nos deter na compreensão do poema DESCONHECIDA (2019, P. 35):

 

As utopias acabaram

em nome da televisão,

um erro feito

pelo preço do petróleo.

 

Eu te amo, tu me amas

e o verbo já não pode mar.

 

Em nome de Cristo

muitas guerras foram dadas

em nome da dívida

uma tristeza no tronco do país.

 

Todos os mestres morreram

e na tua carne se desenha

traços que inauguram um título

baralho aberto no avesso da palavra,

asa feita de corpo e de coragem.

 

Clarissa Macedo abandonou o discurso abstrato, próximo ao filosófico, para assumir uma discursividade direta. Não abre mão das imagens históricas e políticas ao construir a poesia: “As utopias acabaram/ em nome da televisão,/ um erro feito/ pelo preço do petróleo”. Há uma passagem pelos conflitos do petróleo, assim como pelo moralismo protestante que volta o homem para Idade Média: “Em nome de Cristo/ muitas guerras foram dadas”.

 

O mundo agora

cruza um lago sem memória

e em alguns anos

estremos mais pobres

mais burros

mais tristes

na alma

e no pranto (  )

 

Na estrofe acima, a poeta aponta certeiramente para o golpe de 2016, que retirou sem crime constitucional a presidente Dilma Rousseff para a elite cortar os direitos dos trabalhadores, vender o patrimônio estatal, ampliando as injustiças sociais. Ficamos “mais burros, mais tristes” depois da eleição de Bolsonaro. É um fato!

A edição de abril de 2020 do jornal da CUT aponta que a extrema pobreza disparou, as políticas de inclusão foram desfeitas, o trabalhador está sem pai nem mãe. Há uma crise instalada entre nós. Clarissa denuncia a brutal realidade com a ternura da poesia:

 

Cresce um rasgo

em massa e sem história

na palavra-passe chamada pátria –

essa  nódoa, essa trança

esse vazio imenso do nome

no mito de um tempo chamado aflição.

 

Encerra com um tempo poético maravilhoso: “esse vazio imenso do nome/ no mito de um tempo chamado aflição”.

Luiza Cantanhêde é contadora, escritora e poeta. Membro fundadora da Academia Piauiense de Poesia. Publicou três livros, todos premiados. O último é o Pequeno Ensaio Amoroso (Penalux, 2019) que recebeu menção honrosa no Concurso UBE/RJ prêmio “Álvares de Azevedo”.

A poeta lava os olhos da poesia com águas de sal. É lírica sem esquecer, em momento algum, o social. Desde o Palafitas, seu primeiro livro, dá voz aos invisibilizados, aos injustiçados, aos que passam fome neste país agro e “quase pop”.

TREINAMENTO (2019, p. 77) “nestes versos, nenhuma palavra sobra e nenhuma falta, não há adiposidades verbais e a construção beira a perfeição da imagem poética” afirmou o acadêmico e crítico literário José Neres:

 

Na barriga da minha mãe

eu andava pelos babaçuais

do Maranhão.

 

Não conhecia ainda

a função do machado

o coco aberto e ferido

o azeite.

 

Depois conheci

a fome e a lâmina.

 

O Globo Rural de 13 de janeiro de 2019 voltou em algumas comunidades no estado do Maranhão para verificar a situação social das mesmas, quinze anos após a primeira reportagem. A equipe ficou espantada. A realidade não mudou. O trabalho é duro, a renda pouca.

Dona Maria Antônia Cantanhêde Gomes (mãe da poeta) exerceu este ofício por longos anos. O coco grande, com muitas amêndoas foi a base de sustento de muitas famílias, por isso o poema começa com a imagem da vida, no meio da dor: “Na barriga da minha mãe/ eu andava pelos babaçuais/ do Maranhão”.

Há sempre um embrião entre as amêndoas. Elas são espalhadas pelas pacas ao longo do caminho. As matas são exuberantes.  Nunca morrem. Luiza trazia o embrião da poesia, mas na juventude não percebia a injustiça social: “Não conhecia ainda/ a função do machado/ o coco aberto e ferido/ o azeite”.

Quando brota a mulher, o olhar crítico para a realidade da pobreza extrema, entre nós. Nasce um final arrebatador. Duro e belo como o babaçu: “ Depois conheci/ a fome e a lâmina”.

“A gente costuma dizer que uma palmeira é uma mãe que dá sustento a uma família, a vários filhos”, emenda a quebradeira Maria da Glória Belfort no mesmo Globo Rural, citado lá atrás.

Acho que as duas poetas estudadas apresentam o golpe, a revelação, a palavra utópica das cantigas das quebradeiras de coco.

 

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira. 

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 09/05/2020

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Palavras-chave: LITERATURA LITERALMENTE

Fonte:

Big Systems
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