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Agora Santa Inês - A LINGUAGEM MOVENTE EM MEIO AO SILÊNCIO DA MORTE EM PEQUENO ENSAIO AMOROSO, DE LUIZA CANTANHÊDE

A LINGUAGEM MOVENTE EM MEIO AO SILÊNCIO DA MORTE EM PEQUENO ENSAIO AMOROSO, DE LUIZA CANTANHÊDE

Por Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

São inúmeros os escritores que têm poemas ou trechos em seus livros dedicados à mãe. No Brasil, temos alguns exemplos, como os poetas Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Olavo Bilac e Conceição Evaristo.  Um tema sublime com sua sutileza de eternidade, como podemos ver em Drummond, no seu poema “Para sempre”, do livro Lição das coisas: “Por que Deus permite/que as mães vão-se embora?(...)// “Mãe, na sua graça,/é eternidade”. O novo livro de poemas de Luiza Cantanhêde é dedicado à mãe falecida e se funda na poiesis como forma de cicatrizar esta dor. A palavra dita seria um bálsamo em meio à ferida aberta e que teima em não se fechar, mesmo que o tempo descortine um trégua em meio ao delírio da morte. O livro é dividido em quatro partes: Ferida, Geografia esquecida, Somente a boca e O destino das cicatrizes. Em todas as partes perpassa o sofrimento incontido da perda, a ausência é esta solidão que se cria no abismo da linguagem: “Permanece/o silêncio que nada/pergunta e nunca/se espanta.”

No prefácio do livro, do professor de literatura, poeta e escritor Paulo Rodrigues, ele diz: “Ela confirma e expande a falta como elemento essencial do amor”. Mas não é apenas da ausência da mãe que se foi, na sua temática universal, que Luiza vai nos falar. Ela escreve sobre as mulheres, numa temática social e particular, que se foram pela violência de nossa sociedade, como uma Mariele, por exemplo, onde ela cita várias figuras femininas que foram ceifadas no Brasil. Ela arremata que se não fosse tudo isto diria que teria um quase poema. Isso reflete toda a revolta, todo o grito de dor das silenciadas pela injustiça social. Mais uma vez, aqui, o silêncio comparece, não como potência da linguagem, mas como impotência perante os contrastes de nossa sociedade. Já em “Contramão”, o silêncio e a linguagem se encontram em sua beleza oceânica, revelando um som indizível em meio ao vazio, a “música calada”, como nos disse, belamente, San Juan de la Cruz. Em Cantanhêde, temos:  “Há palavras feitas/para devorar silêncios./Há silêncios feitos/para transbordar/palavras”.

Mesmo que a dor devore a filha nos seus silêncios e ausências, há uma esperança em meio ao caos da morte, que é o canto, aquilo que pode ser expresso pela palavra poética, que a acalenta com sorriso triste, mas que se torna “uma porta aberta”, como podemos vislumbrar no poema “Do que ainda pulsa”.  A esperança é o amor incontido da filha, o que restou aqui, no nosso “vale de lágrimas”.  A maternidade traz a vida, o nascimento e nos parece impensável o seu corte, que sangra, pois a vida nos ensina também a partir da morte, uma via crucis pela qual todos teremos que passar. Como escreveu o autor Ivan Santtana: “Somos feitos de necrópole/e maternidade: todo dia nasce/e morre algo em nós.” Esse nascer e morrer traspassa a poesia de Cantanhêde, que dialoga com o infinito a partir deles, pois o que é cíclico é eterno e não é ceifado pela foice da morte, mas se reinventa numa nova vida que renasce em toda a primavera de seu coração. A sensibilidade que há na filha é capaz de parir os sóis da novidade, que iluminam e acolhem, que podem trazer uma oferta inventiva, ou seja, a experiência da poesia em sua existência.

O grande escritor James Joyce nos revelou sua predileção à maternidade em face da paternidade. Em Ulisses, ele escreveu: “Amor matris, genitivo subjetivo e objetivo, pode ser a única coisa verdadeira na vida. A paternidade pode ser uma ficção legal”. Em Cantanhêde, encontramos a perda em todas as suas faces, como dor social e como tema universal através da figuração do tempo: “Ir embora é algo que/demora a terminar”. Deixar-se levar pela correnteza do valor temporal demora a fechar as feridas, que precisam do sopro, do alento da mãe. A memória e a lembrança se direcionam como forma de abraçar este fluxo do tempo. Mas mesmo que o tempo fira de morte um ser, uma nova manhã constrói uma beleza face à penumbra do medo de se estar só: “Há uma manhã nascendo/sobre todos os meus/remendos.” Na terceira parte do livro, a temática social retorna em “Se não morro, falo”. Uma espécie de amor crístico pelos desvalidos, um amor místico e fraternal, que abarca os irmãos que são acometidos pelas injustiças do mundo. Aqui, o símbolo é da vida e da revolução, “se não morro”, a voz libertária é capaz de dizer o que não pode ser dito pelo silêncio da incompreensão, “falo”. Cantanhêde diz: “Vinde, pois, os desprovidos,/catar o que ainda/existe neste chão improvável.” 

A presença da mitologia grega é recorrente em sua poesia, dando sublimidade a ela, através da figura de deuses e heróis. Temos a versão feminina de Dédalo e seu filho Ícaro a partir das imagens da mãe Maria Antônia e sua filha Luiza, como podemos ver no poema “Maria Antônia”: “Mãe/É a tua asa calada/Que me orienta/O voo”. O poema que fecha o livro. Dessa forma, como no mito masculino, não é pela desmesura sem razão que o filho tem que se nortear. A relação entre a mãe e a filha representa a brandura, o bálsamo e a delicadeza, que se tornam possíveis pelo amor que as embala na canção da vida. No poema “Bálsamo e ferida”, ela revela: “Volta/E ensina-me a terna/Oração de toda ferida”. Assim, é pela poesia, como o relicário das coisas mais sagradas, que se traduz como oração, que a cicatriz das palavras é possível, dando um remédio para a dor da ausência, preenchendo os vazios pelos versos.

Conceição Evaristo escreveu num dos seus belos poemas: “O cuidado de minha poesia/aprendi foi de mãe,/mulher de pôr reparo nas coisas,/e de assuntar a vida”.  E é aqui neste livro de Luiza, que pelo amor por sua mãe, que seu dom pela palavra renasce com mais força ainda. É pela linguagem que ela pode traduzir toda a sua entrega a um amor incondicional, que não pode ser medido pelos limites da racionalização. Os limites que se impõem são para que este amor não transborde no caos, mas no rio da leveza que nos absorve com os poemas mais sublimes, que são esses de Cantanhêde , dignos dos grandes poetas universais. A poeta, por ora aqui estudada, tem o dom da linguagem, ela domina com maestria os acordes insones das palavras que não se deixam dormir pelos lençóis do tempo.

Luiza continua: “Dize-me: em que céu/fizestes teu exílio?//Estou indo com as mãos/carregadas de estrelas”. Como fonte de luz, as estrelas guiam e trazem a esperança para os desafortunados. Revelam uma ponte entre os dois mundos, o imanente e o transcendente, o terrestre e o celeste. No Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, estes dizem sobre o significado das estrelas na Guatemala: “...elas ainda representam na crença popular, as almas dos mortos”. Nesse sentido, representa-se aqui uma comunicação com o céu. E o céu, em Cantanhêde, é a metáfora da fé na vida, que costura a via entre a filha e a imagem sempre presente de sua mãe, mesmo que ausente. Portanto, neste livro de poemas excepcional de Luiza Cantanhêde, temos o encontro entre os fluxos e refluxos de um rio atemporal que acolhe tudo o que está à sua volta numa imagem da delicadeza das palavras, que mesmo que se depare com a crueldade mortal, pode mover as expectativas da linguagem movente em meio ao silêncio da morte. Sua poesia se traduz na mais pura beleza da maternidade como dádiva dos deuses, que deve ser dimensionada pela expressividade poética em toda sua correnteza de imagens originais e inusitadas, que nos comovem por sua densidade e profundidade de dizer o inaudito que é a experiência da morte.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 16/05/2020

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Palavras-chave: A LINGUAGEM MOVENTE EM MEIO AO SILÊNCIO DA MORTE EM PEQUENO ENSAIO AMOROSO, DE LUIZA CANTANHÊDE

Fonte:

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