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Agora Santa Inês - MORREU “SEU” OLÍMPIO

MORREU “SEU” OLÍMPIO

O número 462 da antiga Rua 15 de Novembro, a mais histórica de Imperatriz, que margeia o rio -- Tocantins -- por onde a cidade teve início, é hoje, 17 de maio de 2020, um endereço de pesar e pêsames, lágrimas e lembranças.

 

No imóvel desse número, misto de residência e um pequeno bar (anteriormente mercearia), reinava absoluto Olímpio Herênio Bandeira, 93 anos, que às 11h30 deste domingo, 17, resolveu despedir-se da vida neste vale onde pouco valemos... Seu Olímpio foi enterrado à tarde, no Cemitério São João Batista. Estava há doze dias internado no Hospital Santa Mônica, com problemas ligados a aneurisma, entre outros.

 

Nascido em 11 de junho de 1926, “Seu” Olímpio se despede exatamente trinta dias antes de completar 94 anos. Era provavelmente o mais antigo ou um dos mais antigos moradores da 15 de Novembro, a rua que, oficialmente, desde 1º de novembro de 2002, se chama Avenida Frei Manoel Procópio, o religioso baiano fundador da cidade.

 

Seu Olímpio era servidor público federal, aposentado, da Fundação Nacional da Saúde (FUNASA), quando esta ainda estava em seu início, com o nome de Departamento Nacional de Endemias Rurais (DENERU), criado em 1956. O DENERU virou SUCAM (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública), que absorveu também a Campanha de Erradicação da Malária (CEM) e a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV). O DENERU do Seu Olímpio assumiu os programas de combate a doenças agudas, crônicas, infecciosas e infecto-contagiosas, como febre amarela, malária e peste, e ainda bouba, esquistossomose e tracoma , que antes estavam a cargo do Departamento Nacional de Saúde, as três primeiras, e da Divisão de Organização Sanitária, as demais. A FUNASA absorveu também a Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP) e a fusão desses diversos órgãos públicos tornou a FUNASA, no Brasil, a instituição de maior experiência e permanência em termos de engenharia de saúde pública.

 

Foi a essa Fundação, de tão relevantes serviços prestados à sanidade humana e ambiental de milhões e milhões de brasileiros, que Seu Olímpio dedicou 35 anos de sua vida e profissionalismo. Era guarda sanitário (curiosa coincidência: Seu Olímpio nasceu no Dia do Educador Sanitário, 11 de junho). Também foi garimpeiro, e dos “legítimos”, nº 17.119, conforme classificação constante de relação da entidade regional da categoria, a COOMIGASP (Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada).

 

Mas a parte mais exposta e onde mais Seu Olímpio e amigos se confraternizavam era a “Confraria do Olímpio”, possivelmente o mais histórico e tradicional bar de Imperatriz, aberto em 1960, quando vendia cerveja esfriada em geladeira a querosene. Duas motivações o levaram a abrir a “merceariazinha” e bar: “pra não tá parado, porque se estiver parado é pior” e para ampliar a renda doméstica e ajudar no sustento da casa: “Tinha que mexer com um bocado de coisas; se não, não dava conta pra criar os meninos” -- treze filhos, todos vivos (de “A” a “Z”: Arlete, Dilma, Dirlene, Dirlete, Hilma, Manoel, Marlete, Nélson, Olimpinho, Otília, Pedro, Vilma e Zilma), que Olímpio teve com Dª Domingas Martins Bandeira, com quem foi casado por mais de 66 anos.

 

Morei na Rua 15 de Novembro e frequentei por algum tempo a Confraria. Às vezes, chegava bem cedo e, só ele e eu, conversávamos conversas “diferentes” das que ele entreouvia nos dias de agitação, geralmente finais der semana. Conversávamos sobre a Imperatriz de antigamente, os antigos moradores, os episódios de que ele foi testemunha ou “quase”, como o assassinato do prefeito Urbano Rocha etc. Os sobrenomes “Herênio” e “Bandeira” atestam que Seu Olímpio é / era das raízes mais antigas e profundas da genealogia imperatrizense. Os Herênios, por exemplo, estão desde a época da fundação de Imperatriz.

 

Na Confraria do Olímpio, além da bebida, outra coisa escoria líquida e certa: a tolerância, o respeito, mesmo em meio a discussões, às vezes acirrada, relacionadas a questões políticas. A amizade -- oi, no mínimo, consideração -- que todos ali mantinham entre si tornava ainda melhor e mais procurado o ambiente. Seja na meia dúzia de mesas dentro do pequeno bar, seja na calçada e, às vezes, até no quintal da casa, Seu Olímpio recebia a todos e todos sabiam que ele não admitia excessos e desfeitas. Era amigo de pessoas que eram ou foram políticos, tanto no nível local -- os ex-prefeitos Urbano Rocha, de quem se declarava muito amigo, desde a infância, e de Simplício Moreira -- até o plano nacional, como José Sarney, ex-presidente da República, e Edson Vidigal, ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça, ambos que lhe visitaram o pequeno bar e ficaram no grande coração olimpiano (como se vê no registro do maior jornal do Brasil, a “Folha de S. Paulo”, em 10 de maio de 2006, que colhi e relatei um dia depois da circulação do tradicional jornal paulista).

 

Seu Olímpio, se São Pedro não encrencar, é já que abre um barzinho intimista ali em um cantinho do céu. Quem sabe por ali apareçam, para tomar mel e comer maná, gente de ontem e de hoje, imperatrizenses que, mortos, continuam vivos na lembrança: sua esposa Domingas Martins Bandeira, Sophia Herênio e Alzira Medlig Herênio (suas primas), Jurivê de Macedo, Roberto Almeida dos Santos (Roberto Gelobom, empresário, ex-goleiro), José Edvar Coelho Frota, Adib Duailib Barros, Pedro Américo de Sales Gomes, Rosseny da Costa Marinho, Aruanã Cortez de Lucena, Jorge Kalil Filho, José (Zequinha) Rocha e sua mulher, a professora Mary Dalva Castro Rocha, professor Jorge e professor Osvaldo Carvalho (ensinavam no curso de Letras, na Uema)... ...professoras Teresinha Ricarte e Jacilena (também da Uema), Francisco Fiim, Renato Moreira, Neyzinho e seu pai, Ney Vasconcelos Milhomem (só me chamava de “Dom Sanches de Larragoya”), Francisquinho (da Farmácia dos Bons Remédios), Miguel Bandeira, Guilherme Cortez, Olímpio Cipriano, Sebastião Gonçalves dos Santos, Gilmário Café... ...Wilson Allyson, Jesus Oliveira, Francisco Herênio, Deolindo Nolasco das Neves, José Avelino de Carvalho, Lourenço Galletti (mais esposa, Maria das Graças Galletti e o filho Lucas), Aderson Baiano, Arlem Gonçalves, Clésio Fonseca, Augusto Moreira, José Arcanjo (o “Manchinha”), Raimundo Gomes Batista (o “Raimundo da Jerica”), Manoel (da CEMAR, irmão do “Japão”), Vanderlei Saraiva, Pietro Gabrielli (o frei Tadeu)... Os mais recentes, deixem-se descansar um pouco mais...

 

Certa vez, Seu Olímpio declarou, entre risos e sorrisos:

 

“Eu sou acostumado a trabalhar; então, enquanto eu me mexer tenho que trabalhar. Eu nunca tive de vontade de sair daqui. Daqui eu já sei para onde é que eu vou.”

 

É, Seu Olímpio. O correr dos anos, das décadas, lhe deu a certeza de para onde você vai... -- para o Alto.

 

Nós, aqui embaixo, só sabemos de onde você não sai... -- de nossas lembranças.

 

Vai em paz, Seu Olímpio, e para quem tanto trabalhou na vida desde criança, faça-se uma gentileza, antes de abrir seu bar no Céu:

 

Encontre logo Dª Domingas aí e...

 

...descanse.

 

Você agora tem toda a Eternidade para fazer as demais coisas...

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 20/05/2020

Visitas: 53

Palavras-chave: MORREU “SEU” OLÍMPIO

Fonte:

Big Systems
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