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Agora Santa Inês - TELLUS E A POÉTICA DO JOSÉ CHAGAS

TELLUS E A POÉTICA DO JOSÉ CHAGAS

“eu sei de tua foice, tua enxada,

de tuas mãos cavando a terra alheia,

 de teu suor, da lágrima deixada

em cada pedra em cada grão de areia”.

 

(José Chagas)

 

   Quarentena é um momento de renovar a leitura e reler obras que nos marcaram. Acabei encontrando aqui, na minha biblioteca, o livro De Lavra e de Palavra ou Campoemas de José Chagas. É a segunda edição pela Sotaque Norte Editora (2002). São mais de noventa sonetos clássicos, plantados quase agarrados como pés de mandioca.

         Era paraibano. Morou na terra de João do Vale, depois fixou as raízes em São Luís. Cantou os telhados, os azulejos, os canhões e o silêncio da capital. Sabia diluir-se entre as ruas de pedra e as sombras dos casarões: “Todas as manhãs o mirante/ me lança pela janela/ uma amostra grátis/ de São Luís. A janela me escova os dentes”. Há uma sensação de sonho na leitura do poeta; uma alegria entusiasmada com as novidades daquela geografia histórica e humana.

         Ele nos deixou em maio de 2014, depois de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e um infarto. Recebeu merecidas homenagens da Academia Maranhense de Letras, que reeditou de forma criteriosa, o livro Colégio de Vento, em 2013.

         No entanto, não é São Luís o foco da minha análise. Fixarei o olhar em dois poemas da obra, que recuperam a deusa romana da terra (mulher corpulenta, de muitos peitos, fértil). Assim como a poesia de José Chagas. O primeiro é o Soneto XXIV (2002, p. 58):

 

Enquanto o chão não for de quem produz

e for de quem só é proprietário;

enquanto o sol assista a tanta luz

desperdiçada em seu favor diário,

por ver que seu calor não se reduz

a frutos de um labor em que se ampare

o camponês, que tem nos ombros nus

a marca já de um peso extraordinário,

enquanto o chão inteiro se conduz

para a ambição do latifundiário,

como se apenas este é que faz jus,

mesmo ao que não lhe seja necessário,

o camponês há de levar a cruz

como quem chega vivo ao seu calvário. 

 

        A colonização instalou, entre nós, o problema da terra. Avançamos no tempo; pioramos neste quesito e em muitos outros. A revista britânica Oxfam afirma: “cinquenta por cento das terras rurais do Brasil estão na mão de um por cento da população, em 2020”.

        É sobre este crime histórico que o poeta se debruça, mas ele não quer dados. Prefere ser a voz dos que não tem voz; a enunciação contundente e bela: “o camponês, que tem nos ombros nus/ a marca de um peso extraordinário”. O quadro cênico torna o discurso arrasador. Somos tocados pela questão agrária como se tivéssemos diante de uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra - MST.  

        Encerra o poema com uma imagem angustiante, cheia de sofrimento e sangue: “o camponês há de levar a cruz/ como quem chega vivo ao seu calvário”. O poeta traça o destino do homem com conhecimento nas mãos calejadas, num ato memorialístico para além do lirismo.

        Seguindo, vamos ao Soneto LII (2002, p. 86):

 

O camponês às vezes estremunha,

de madrugada, antes que cante o galo,

e rói a escuridão com sua unha,

toca o frio da noite com seu calo,

sente uma coisa em si que não supunha

fosse tão forte assim para acordá-lo,

e é como um pesadelo que o acabrunha,

que pesa sobre a rede e o seu embalo,

ou parece descer como uma cunha

com a qual quisesse alguém despedaçá-lo,

e por mais que esperneie e grite e grunha,

não há trégua na dor nem intervalo,

e é ele a sua própria testemunha

num crime, sem poder denunciá-lo.

 

       Doído e saboroso. Recupera o tom animalesco de Fabiano, no romance Vidas Secas de Graciliano Ramos. É um camponês jogado na impossibilidade da transcendência, gastando o oxigênio dos pulmões numa materialidade incompreensível e desumana: “ ou parece descer como uma cunha/ com a qual quisesse alguém despedaçá-lo,/ e por mais que esperneie e grite e grunha/ não há trégua na dor nem intervalo”.

         Chagas não tem medo de denunciar a injustiça. Quer mesmo assumir a voz do personagem e gritar. Abre a exploração do homem, com golpes de peixeira. Faz análise deste latifúndio continental que ainda parece uma feitoria.

          Fecha o poema com um paradoxo arrasador: “e é ele a sua própria testemunha/ num crime, sem poder denunciá-lo”. Uma escrita crítica. Joga luz na miséria e injustiças sociais enfrentadas em regiões carentes da nossa nação.

         Enfim, lembro do Leonardo Boff para ampliar a lição do poeta: “somos peregrinos sobre a terra? Não. Somos filhos da terra. A terra deve ser a expressão da consciência, da liberdade e do amor”.

 

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 23/05/2020

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Palavras-chave: TELLUS E A POÉTICA DO JOSÉ CHAGAS

Fonte: PAULO RODRIGUES

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