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Agora Santa Inês - HIBISCO ROXO, DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

HIBISCO ROXO, DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

Por Magna Domingues* para o Jornal AGORA SANTA INÊS

Um romance que conta como o processo de colonização afeta as subjetividades e determina relações interpessoais tão violentamente quanto produz desastrosos efeitos sociais e econômicos para os povos colonizados. Essa poderia ser uma apresentação sintética de Hibisco Roxo, escrito pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma mulher negra e feminista.

A personagem principal, e narradora, do livro é Kambili, uma adolescente tímida que vive com a mãe Beatrice, o irmão Jaja e o pai Eugene. O pai é um fanático religioso católico que submete sua família à regras e rotinas tiranas, opressivas e violentas, que (não) se justificam pela fé e superproteção, fazendo que a mulher e os filhos sejam verdadeiramente refém de dogmas, com direito a punições físicas e abusos psicológicos.

“-É isto que você faz consigo mesma quando caminha na direção do pecado. Queima os pés – disse ele.” Pág 207

Eugene abomina tudo o que o vai contra aos seus princípios religiosos, inclusive o próprio pai, que ele considera pagão por manter as tradições africanas, e não se rende às investidas da cultura ocidental. A intolerância de Eugene permite que o pai viva numa verdadeira situação de miséria, enquanto ele desfruta de riqueza e conforto pois é um empresário bem sucedido. 

A vida de Kambili e Jaja muda a partir do momento em que eles vão passar uns dias em outra cidade, na casa de sua tia Ifeoma, irmã de Eugene, professora universitária, viúva, que vive com três filhos.

Essa família enfrenta falta de comida, água, luz, a descarga no vaso sanitário é racionada e a gasolina de seu carro velho é fracionada. No entanto, não falta amor, felicidade, e sobretudo liberdade, algo que Jaja e Kambili nem sonham em ter. Em casa, todo o controle exercido pelo pai, os impede de executar tarefas simples como escolher o canal de TV para assistir, o tipo de música que vão ouvir, que roupa usar ou ter a chave do próprio quarto.

Enquanto Jaja e Kambili tem dinheiro, mas não tem espontaneidade, alegria, nem liberdade, a família de Ifeoma sofre escassez de tudo, mas são felizes, têm escolhas e são livres para serem eles mesmos. A partir dessa convivência, Jaja e Kambili amadurecem em poucos dias que ficam sem a sombra do pai, e isso lhes proporciona descobertas que influenciarão na quebra do ciclo de violência familiar que vivem.A leitura dessa história causa muita indignação. Chimamanda consegue descrever cenas de violência com destreza e delicadeza, causando no leitor um sofrimento de quem praticamente sente as dores dos personagens sem que tenhamos vontade de abandonar a livro, pelo contrário, a leitura é fluida e emocionante. Também podemos fazer um paralelo com os mais diversos episódios de intolerância religiosa que assistimos em nosso cotidiano, seja pelas notícias veiculadas pela mídia, como ataques aos templos religiosos de matriz africana, ou mesmo por conhecermos pessoas e famílias que vivem verdadeiros conflitos e violências quando, por exemplo, um filho ou filha não é aceito por sua orientação sexual fora da heteronormatividade. Para se encaixar em padrões eurocêntricos impostos pelo capital e pela religião, a colonialidade massacra a cultura local e atormenta as subjetividades. Assim, identificamos na história narrada por Kambili uma gritante desigualdade social, repressão, censura, fanatismo e intolerância religiosa, violência doméstica e opressão como heranças da colonização. Chimamanda mostra muito bem essa ferida da sociedade nigeriana nesse texto e nós conseguimos facilmente pensar na nossa sociedade brasileira a partir dessa lógica também.

*Magna Domingues é professora de sala de leitura, psicóloga e contadora de histórias. Idealizadora do projeto Baú Encantado, que realiza contações de histórias infantis, e também fundadora do Clube do Livro Preta, um projeto com encontros mensais para dialogar sobre livros escritos por mulheres negras.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 18/07/2020

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Palavras-chave: HIBISCO ROXO, DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

Fonte:

Big Systems
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