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Agora Santa Inês - AVENIDA PAULISTA - Um olhar maranhense sobre a mais famosa avenida do Brasil

AVENIDA PAULISTA - Um olhar maranhense sobre a mais famosa avenida do Brasil

* * *

A Avenida Paulista, sozinha, é um mundo. Um microcosmo. E a sensibilidade do olhar de quem a olha e a sente encarrega-se de torná-la ainda maior. Já foi tema de novela. Daria muitos romances.

 

Igual a São Paulo, sou dos que madrugam, ou quase não dormem. Caminho entre seis e sete da manhã pela Paulista e vou observando e absorvendo o sono, o silêncio e a imobilidade das pessoas que, sob o frio de nove graus (sem contar o vento), formam a população de rua que àquela hora ainda dorme, pessoas encolhidas, distribuídas espaçada e pontualmente sob agasalhos, próximas aos grandes edifícios, gigantescos totens do mundo tribal dos negócios, do dinheiro.

 

De volta, no cair da tarde, clima mais ameno (mais ou menos), não há piano, mas ouço música. Aqui um violino; adiante, um violão. Violino e violão que tocam sem pedir, mas são pedintes. Aquele toca “La Vie en Rose”; este, “Hallellujah” (no dia seguinte, o violonista toca meus passos e sentidos com “Killing Me Softly With This Song”).

 

O largo passeio da Avenida Paulista abriga passos. Passadas. Passado. Tem em sua história gente de sangue maranhense: Horácio Sabino, que morou ali e foi decisivo no desenvolvimento urbanístico e imobiliário daquela área. Ele era filho de Ricardo Leão Sabino, maranhense de São Luís, um homem de mais de sete instrumentos (militar, filósofo, cirurgião-dentista, empresário, espadachim, arquiteto, poliglota, escritor, estatuário, tabelião, desenhista, músico, aventureiro, carpinteiro etc.) que, morando em Caxias (MA), foi professor do futuro poeta Gonçalves Dias, a quem incentivou, formou um grupo de amigos para juntar dinheiro e mandar o menino para Coimbra, tal o talento que ele, professor, percebera no jovem marçano -- que anos depois conquistaria as mentes brasílicas até hoje, com a onipresença, na mente dos brasileiros, dos dois primeiros versos da “Canção do Exílio” (“Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá”) e com a presença de outros dois versos do mesmo poema (os dois últimos do segundo quarteto) no “Hino Nacional Brasileiro” -- “Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores”.

 

Há décadas tenho marcado passos nesta avenida. Aqui perto da capital fiz estudos de pós-graduação. Aqui perto, no Memorial da América Latina, fiz palestra e, na marginal do Tietê e no Colégio Rio Branco, em Higienópolis, fiz discursos. Sobretudo, aqui perto, de coração apertado, alma dilacerada, garganta entupida, olhos aguados, mantive vigília, fui escoteiro, “sempre alerta” em antessala de UTI em grande hospital da cidade que acolheu diversas vezes minha mãe, que lutava contra doença raríssima, autoimune, de nome tão complicado quanto o próprio mal.

 

Em termos demográficos, a Avenida Paulista, em seus quase três quilômetros, reproduz um pouco dos quinhentos milhões de quilômetros quadrados do nosso planeta. Sua população residente, somente ela, a tornaria umas das 150 maiores cidades brasileiras, em meio às 5.570 existentes.

 

Pela Paulista soam, silentes ou ruidosos, os passos de pessoas de todas as unidades federativas do continente Brasil e de todos os continentes do mundo. Por ela ecoam surdamente os sonhos de tantos esperançosos e desesperados, loucos para verem seus desejos transformarem-se em obra tão concreta quanto os pétreos prédios, petrificados como moais nas margens da avenida.

 

Encosto-me em um canto e tento radiografar semblantes e sentimentos -- na verdade, intuir o que querem tantos corações, os duzentos mil deles que moram na avenida e os milhões que ao longo dos dias fazem um caminho sem rastro nas calçadas. Qual o destino de tanta gente? Qual a forma de seus sonhos, a fórmula de seus desejos? Em que fôrma cabem suas vontades?

 

Não há resposta. O que me chega é apenas o odor vagabundo de um cigarro, o chacoalhar incansável da caneca de moedas de um mendigo, o som esmoler de um violino e um violão que soltam notas que poucos notam...

E, acima de tudo, o que me chega, o que vem ao meu encontro na Avenida Paulista é a saudade de minha mãe, que, entubada e mudamente, lutava em leito ali perto e terminaria, aos 49 anos, por não poder, abraçada a mim, dividir comigo mais passos ao longo das avenidas da vida...

 

Faz frio na avenida.

 

E chove dentro de mim...

 

EDMILSON SANCHES

[email protected]

 

Postado por: Paulo Silveira

Categoria do Post: A-Cidade

Data: 25/07/2020

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Palavras-chave: AVENIDA PAULISTA - Um olhar maranhense sobre a mais famosa avenida do Brasil

Fonte: EDMILSON SANCHES

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