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Agora Santa Inês - OS CEGOS QUE, VENDO, NÃO VEEM...

OS CEGOS QUE, VENDO, NÃO VEEM...

Por: Georgiana Lima*

“Um dia normal na cidade. Os carros parados numa esquina esperam o sinal mudar. A luz verde acende-se, mas um dos carros não se move. Em meio às buzinas enfurecidas e à gente que bate nos vidros, percebe-se o movimento da boca do motorista, formando uma palavra, uma, não, duas: “Estou cego”. (Ensaio sobre a cegueira- José Saramago)

 

Recentemente fui ao oftalmologista porque estava sentindo minha visão turva. O meu velho médico que, infelizmente, não clinica mais, sempre me dizia: - É coisa da idade, Georgiana. Bem assim mesmo, na maioria dos casos. Esse diagnóstico era também reiterado por minha irmã Luciana que, ao ver minha preocupação, gritou de onde estava: “- É vista cansada, Geor”. Em outras palavras, deixa para lá. Fato é que tive que buscar outros especialistas para avaliar se o problema era além da idade e da popular “vista cansada”. Então, peguei a lista extensa de oftalmologistas indicados por outra irmã, desta vez a Juliana. Aliás, ela tem um staff de sugestões de todos os tipos. Eu estou falando de uma lista extensa mesma. Àquela que vai do pedreiro, passando pelo eletricista... e, claro, médicos de várias especialidades. Infalível essa minha irmã! E foi assim que obtive rapidamente a minha listinha à qual fui eliminando os nomes pela localização dos consultórios. Eu sempre penso na logística. Os mais distantes foram riscados. Os sem estacionamento próprio também eliminados. Segurança e conforto são os meus prediletos na hora da escolha.

Demorei mais ou menos 15 minutos verificando no google maps. Cheguei, assim, aos quatro melhores, segundo meus critérios. O primeiro consultório ao qual liguei, não tinha data próxima. O segundo, a médica estava viajando. O terceiro deles, passou a ligação para três atendentes até eu receber a seguinte resposta muito simpática da recepcionista com voz empostada: “- Nós não recebemos mais seu plano, Sra. Georgiana”. Há algo mais em que possa ajudá-la? Demorei uns segundos para responder, irritada, que não precisava e desliguei. Já estava quase desistindo, quando finalmente consegui na quarta opção tudo o que queria: logística perfeita, data próxima para atendimento e aceitavam meu plano de saúde. Ufa, que guerra!

Portanto, semana seguinte, lá estava eu no horário marcado e esperando ser chamada por senha. Olhei ao redor para fazer uma checagem mental do tempo em que seria atendida. Três idosos e dois outros que já estavam na minha frente. Tudo bem, tempo suficiente para ler as notícias e alimentar minhas redes sociais. E, assim, o fiz pacientemente até que, finalmente, chegou minha vez. Ou pelo menos era o que eu pensava olhando o painel vermelho à minha frente.

Desta vez, porém, a recepcionista chama alto. Opa, não era eu. Era GEORGINA. Mas, olhei para os lados, e só havia uma pessoa. Eu mesma. Então, eu era a famigerada GEORGINA Lima Viana de novo? Mordi o lábio inferior esperando o desfecho o qual já sabia. De novo- não-pensei cerrando os olhos. Até poderia já estar acostumada com a dificuldade que a maioria das pessoas têm com meu nome. Porém, isso irrita e muito. Pois, parece que elas não enxergam o “A” final e sempre me chamam GEORGINA. Até mesmo meus documentos já os troquei por conta dessa inabilidade. Às vezes, nem corrijo mais, deixo estar.

Por isso, passei a detestar esse nome GEORGINA. Mas, meu querido irmão mais novo, Zé Maria Filho, o mais piadista da família, não perdoa. E, sabendo disso, sempre me chama por GeorgINA. No entanto, nesse dia da consulta, fiz exatamente como em quase todas as outras vezes. Engoli em seco. E, entediada, a corrigi: “-GEORGIANA, meu nome é Georgiana. Ela olhou -meio envergonhada-meu documento de novo. “-Ah, desculpe D. GeorgiANA”. Eu só disse ok, meio sorriso nos lábios.

Disposta a esquecer o pequeno incidente, entro na sala do consultório médico. Logo, o médico, um senhor muito simpático, levanta-se da cadeira para cumprimentar-me com a mão firme e sorriso nos lábios. Estranhei. Porque não faz parte do habitus médico essa disponibilidade toda, digamos assim. Geralmente, eles mal nos olham e a consulta termina em pouco mais que dez minutos. Entretanto, essa foi totalmente inusitada. Logo eu saberia o porquê. Falei da minha visão embaçada, dos olhos quase sempre secos e avermelhados, etc. O médico ia anotando tudo, acenando com a cabeça. Até aí tudo como numa consulta de praxe.

Entretanto, quando sentei para fazer o teste de vista, ele logo perguntou: " Estás vendo, Georgiana?"(mostrando as letras maiores). Eu respondi: "Estou enxergando, sim, doutor”. E as repeti. A, B, C ... eis que, prontamente, ele me corrigiu. Eu pensei, com vergonha, que tinha errado. Mas ele retrucou que VER e ENXERGAR eram coisas distintas. Jamais esperava isso dele. Instantaneamente, tirei os olhos do aparelho e curiosa tentei falar. Ele fez um gesto com a mão para eu permanecer onde estava. Depois ele explicaria, disse já percebendo minha ansiedade compulsiva.

Em seguida, veio a pergunta: “-Georgiana, qual é tua profissão?” Eu imaginei que fosse a razão para minha visão embaçada. Mas, quando disse que era professora, ele arregalou os olhos com admiração. Não, não era isso. O doutor relatou que também tinha sido seu desejo de início ser um professor. Professor de filosofia, repetiu ele com um olhar distante- como se já estivesse em outro lugar. Mas, por razões familiares, contou, teve que mudar seu percurso de vida. Pois, à época, seus pais jamais consentiriam um filósofo na família. Depois, eu compreendi o porquê disso somente sabendo o sobrenome da família dele. Pois ele fazia parte de uma família elitista muito tradicional do Maranhão. Quase toda a família era de médicos. Talvez ele, percebendo meu espanto, disse logo: “-Eu amo minha profissão, Georgiana”. Mas, continuou, se ele não fosse quem era, poderia ter sido professor de filosofia.

Bem, aí acabou a consulta e começou um papo mesclado entre filosofia/literatura/medicina. Tudo junto e misturado. Logo, começamos a divagar sobre o tema e o lembrei de Saint Exupéry, autor do tão citado e mal interpretado- "O Pequeno Príncipe"- que dizia "Só se vê bem com os olhos do coração”. Falei também de Saramago no clássico " Ensaio sobre a cegueira" em que Saramago, dentre outros trechos fantásticos, cita: “Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são”. E, de fato, o que se vê na obra é uma redução da humanidade às necessidades e afetos mais básicos, um progressivo obscurecimento e correspondente iluminação das qualidades e dos terrores do homem. Algo assustador. Trocamos muitas ideias sobre o tema e enveredemos pelo momento político atual para entendermos a tal cegueira de muitos.

O doutor adorou e anotou outras indicações minhas de obras literárias que, a exemplo de Saramago, o estingassem. E, foi então que ele explicou-me a diferença cientifica entre ver e enxergar. Pois, segundo as pesquisas mais recentes sobre o tema, ver e enxergar são coisas bastante diferentes. E, como tal, envolvem partes distintas do nosso cérebro. Isso quer dizer que a consciência visual e a atenção visual são mecanismos que atuam de formas distintas. Deste modo, a nossa mente compreende de modos também diferentes aquilo que vemos e percebemos a luz dos nossos olhos. “-Elementar, meu caro Watson”, soltou o doutor intelectual de modo bem humorado.

Portanto, ele explicou muito sério: “- nem tudo que parece é, Georgiana”. Rimos juntos. Muito, muito bom. Melhor que a consulta, foi a constatação de que literatura, filosofia e medicina caminharam juntas nesse percurso para dar-nos a mesmice conclusão: a de lembrarmos da “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Ah, voltando ao parecer médico sobre meu problema, tive que mudar a lente dos óculos. E, finalmente, estou agora vendo e enxergando muito mais que antes. Por isso, não deixe de consultar periodicamente o oftalmologista. Quem sabe seu problema não seja esse também!!!

Georgiana Lima: Formada em Letras pela UFMA. Pós-graduada em Inglês pela Universidade do Alabama (BAMA U) e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade Nacional de Rosario  (ARG). Email para contato: [email protected] Instagram: @georlima_

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 12/09/2020

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Palavras-chave: OS CEGOS QUE, VENDO, NÃO VEEM...

Fonte: Georgiana Lima

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