• Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
Agora Santa Inês - CINE MIX : A coluna de cinema do AGORA SANTA INÊS

CINE MIX : A coluna de cinema do AGORA SANTA INÊS

JOSÉ AGRIPPINO DE PAULA:

 MARGINAL ATÉ O FIM

Em 04 de julho de 2007, morreu de infarto o cineasta e escritor José Agrippino de Paula. Volta e meia, ele é citado quando se fala em movimento tropicalista do final da década de sessenta. Escrevo aqui uma pequena homenagem de duas obras que considero importantes para mim: o livro PanAmérica e o filme “Hitler , Terceiro mundo”.

O livro PanAmérica é um referência para diversas gerações de escritores, e é um painel alegórico e imagético (um cinema escrito) que mistura diversos personagens da emergente cultura pop americana: como John Wayne, Marilyn Monroe, o jogador Joe Di Maggio, Andy Warhol; fazendo alusão a sociedade de consumo dos anos 60. José Agrippino, com sua linguagem até de certo modo “pulp”, foi referência também para o Tropicalismo de Caetano e Cia. O livro foi um achado para mim e continua na minha lista de melhores leituras. Obrigatório...

O filme “Hitler, terceiro mundo” é uma película que faz parte da escola marginal da década de sessenta. E faz jus a estética: choca, provoca e em muitos momentos aproxima seres humanos de irracionais. O destaque é um certo Jô Soares no papel de samurai, com cenas marcantes no decorrer de todo o filme. Logo no início, o samurai joga folhas para moradores de rua, que mais parecem animais irracionais do que gente. E por fim, o samurai Jô, sedento de fome, come uma pedaço de carne soltando grunido, como um verdadeiro animal.

Para mim, de todos os filmes marginais que vi, “Hitler, terceiro mundo, experimentou e soube dosar choque e todo o conjunto de características da estética marginal, com originalidade e genialidade, mais do que qualquer outro exemplar filiado a escola cinematográfica marginal brasileira. José Agippino de Paula, morreu dez dias antes de completar seus 70 anos. Morreu esquecido e esquizofrênico, porém deixou duas obras que farão, de tempos em tempos, ser lembrado.

©José Viana Filho é Bacharel em Cinema pela UNESA(RJ) e Mestre em Políticas Públicas pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais.

Email: [email protected]  Blog: www.josevianafilho.blogspot.com.br

O FILME DA SEMANA

 “Estou pensando em acabar com tudo”

A memória é uma parte de nossa mente, que com um distanciamento têm uma tendência a ganhar vida própria, indo além do fato, ganhando novos elementos, que inconscientemente agregamos em uma mistura sensorial e de ideias, que atrelam elementos irreais ao passado. Seja nas cores ou paladar, a memória tem a característica de ressaltar elementos, que podem romantizar uma situação ou torná-la ainda mais dolorosa, de acordo com a forma com que a lembrança nos afeta.

O diretor e roteirista Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembrança, Sinédoque Nova York) se interessa muito por esses conceitos de lembrança, sobre o interior da psique humana e pela forma intimista e única com que seus personagens enxergam o mundo, e principalmente, como se relacionam com outras pessoas.

'Estou pensando em acabar com tudo" é o novo filme do diretor e roteirista que chega ao streaming pela Netflix, e traz toda a originalidade, sensibilidade e ousadia de um artista inovador e criativo, que têm uma filmografia formidável, pautada por filmes complexos que exigem do espectador, mas que sempre proporcionam experiências poderosas e reflexivas. 

Baseado no livro homônimo de Ian Reed, a trama acompanha uma jovem mulher (Jessie Buckley), que aceita viajar em meio a uma nevasca para conhecer os pais do namorado, mesmo estando insatisfeita e desgastada com o recente relacionamento. Ao chegar na casa do casal, ela encontra um casal idoso de comportamento estranho e começa a sentir e notar acontecimentos desconexos que vão levá-la em uma jornada interior turbulenta.

Kaufman é um mestre nesse tipo de narrativa: joga com a percepção temporal e espacial de seus personagens e do espectador. Abrindo com uma série de imagens de uma casa vazia, mas cheia de objetos que remetem a ideia de vida, o filme promove o encontro do casal, a jovem mulher com seu figurino colorido e vibrante em contraste com as roupas escuras de seu namorado, e a empolgação inicial do encontro rapidamente vira um pesada reflexão, como se ela fosse tragada pela personalidade do namorado.

O casal interpretado por Jessie Buckley (Chernobyl) e Jesse Plemons (O irlandês), denota uma falta de química proposital que funciona muito bem. Nunca parece que estamos realmente acompanhando um casal, sensação causada não só pelas diferentes personalidades, mas por uma espécie de hostilidade constantemente presente.

Kaufman faz uso da incessante nevasca para causar a sensação de enclausuramento, a própria razão de aspecto do filme funciona nesse sentido. O filme traz um exterior frio e escuro, como se eles estivessem sempre isolados de tudo, característica que ressalta a idéia de hostilidade do mundo exterior e intensifica os conflitos entre os personagens, já que eles não têm para onde ir e precisam lidar com suas diferenças em uma relação desgastada.

O filme tem momentos bastante verborrágicos, o confinamento do casal no carro traz importantes informações e reflexões sobre a natureza não só dos personagens, mas sobre a dinâmica do filme e do relacionamento entre eles. Mesmo que possa cansar os mais impacientes em um primeiro momento, o filme vai apresentando elementos importantes que serão imprescindíveis para a experiência.

A chegada a fazenda traz alguns elementos, que em um primeiro momento remetem a um filme de terror; uma escolha interessante que ressalta o estranhamento que gradativamente vai ganhando forma. Nesse sentido, a atuação de Toni Collette (Hereditário) e David Thewlis (Mulher Maravilha) é imprescindível para a construção do desconforto da protagonista e do espectador.

As repentinas mudanças de humor e de comportamento do casal idoso, alguns elementos que remetem a uma violência passada (esse é um elemento que surge em várias cenas do filme, mas nunca é aprofundado), as estranhas aparições dos animais, são elementos que vão se encaixando na proposta do filme e montando um mosaico de informações, que vai se revelando a seu tempo, mostrando mais uma vez a qualidade do texto de Kaufman, em uma obra ambiciosa com uma estrutura e ritmo impecáveis.

O filme traz discussões sobre relacionamentos, medos, sobre a natureza humana, sobre a velhice, sobre conceitos do tempo :notem como a ideia de que é o tempo que passa por nós, se encaixa perfeitamente no conceito do carro. O filme passa a sensação de que o carro está quase sempre parado e quem parece passar por ele é a tempestade. A produção ainda discute sobre a arte e sobre o próprio cinema, e cria alegorias ao associar sensações a gêneros, atribuindo uma grande importância às artes em nossa memória e nossa vivência.  

Visualmente, esse é provavelmente o filme mais lúdico do diretor, alguns momentos (principalmente no terceiro ato) lembram muito o cinema de Michel Gondry (um dos parceiros recorrentes de Kaufman). O uso de truques de montagem e efeitos práticos, criam uma sensação forte de realidade, mesmo que sejam usados diversas vezes para desorientar, ressaltando a relação de incerteza que assim como nós, os personagens têm com suas memórias e sentimentos passados.

'Estou pensando em acabar com tudo' é um filme que exige do espectador (assim como toda obra de Kaufman), mas o resultado é um longa sensível, por vezes angustiante, rico em detalhes, que provoca reflexões e sentimentos difíceis de ignorar. Foi inevitável, ao final da exibição me pegar refletindo sobre minhas próprias memórias, num fluxo de pensamento que busca o passado, o futuro, uma reação imediata que só os grandes filmes conseguem provocar. 

Felipe Fernandes é Bacharel em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro). Formado em Direção cinematográfica pela New York Film Academy (Los Angeles). Formado em Roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Vídeomaker, publicitário e crítico de cinema.

E-mail para contato: [email protected]

Instagram: @moviola.insta

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 12/09/2020

Visitas: 326

Palavras-chave: CINE MIX : A coluna de cinema do AGORA SANTA INÊS

Fonte:

Big Systems
7404729 visitas no Portal www.agorasantaines.com.br hoje 25 do mês 09 de 2020