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Agora Santa Inês - QUAIS PROPOSTAS DE EDUCAÇÃO SÃO ESSENCIAIS PARA ESTE MILÊNIO?

QUAIS PROPOSTAS DE EDUCAÇÃO SÃO ESSENCIAIS PARA ESTE MILÊNIO?

Por Valda Colares

(doutoranda em Ciências da Educação)

 

“Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação,

que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica,

outra lógica, outros meios de conhecimento”.

Italo Calvino

O excerto acima foi retirado da obra, “Seis propostas para o próximo milênio”, do escritor italiano, Italo Calvino, um conjunto de palestras que deveriam ser feitas na Universidade de Harvard (Cambridge, Massachusetts, E.U.A), no ano de 1985, mas que não aconteceram devido ao seu falecimento. Trata-se, portanto, de uma obra póstuma, que foi editada pela viúva do autor, a senhora Esther Judith Singer Calvino.

15 anos separavam o criador e a conferência, do Século XXI, daí a razão de ser do título. O autor já havia discorrido cinco textos, deixando o sexto deles para boquejar, lá mesmo em Harvard, são eles:

1.     Leveza;

2.     Rapidez;

3.     Exatidão;

4.     Visibilidade;

5.     Multiplicidade e a

6.     Consistência, que eram notas e referências “ao Bartleby, de Herman

Melville” e que estava em desenvolvimento. A escolha dos temas, deveu-se ao fato de que, para Calvino, “alguns valores literários mereciam ser preservados no curso do próximo milênio”, informa Esther Calvino.

Na perspectiva do contraponto, leveza-peso (afinal existe sempre a oposição), decidiu-se pela exposição sobre a leveza, por achar que tinha mais coisas a dizer referente a ela, “considerando-a antes um valor do que um defeito”, Calvino (1990:15). Com relação à rapidez, explicava que, “o trabalho do escritor deve levar em conta, tempos diferentes” Calvino (idem:66).

A respeito da exatidão, porque ela “dizia principalmente três coisas: 1. Um projeto de obra bem definido e calculado; 2. A evocação de imagens visuais nítidas, incisivas e memoráveis; 3. Uma linguagem que seja a mais precisa possível”. Para contar da visibilidade, recorreu ao Humanista e poeta florentino Dante Alighieri e à sua mais relevante obra, “A Divina Comédia”, mais precisamente no círculo do “Purgatório”, o “círculo dos coléricos”, a partir do canto XVII, 25, uma alusão à frase: “Chove dentro da alta fantasia”. É preciso usar a imaginação, “a fantasia, o sonho”, destaca Calvino (1990:97).

Na abertura do tema multiplicidade, ele faz uma citação a Carlo Emilio Gadda, poeta italiano, pouco conhecido, achava que a proposta filosófica do bardo, casava bem com o que ele ponderava sobre a estrutura social, no sentido em que, ambos viam o “mundo como um ‘sistema de sistemas’, em que cada sistema particular condiciona os demais sistemas e é condicionado por eles”. Tudo influencia e é influenciado.

E por fim a consistência, conforme já foi pontuado, esse tema seria desenvolvido no decorrer das palestras. O que se sabe é que Calvino fez várias anotações acerca da obra “Bartleby” (Escrivão) do Herman Melville, escritor estadunidense, do Século XIX. E que influenciou grandes nomes da literatura mundial, como Albert Camus (argelino), Franz Kafka (tcheco), Enrique Vila-Matas (espanhol). Como também autores do pensamento político moderno: Antonio Negri (italiano) e Michael Hardt (estadunidense). Além de adaptações para o cinema e o teatro.

O que se propõe aqui é traçar um paralelo entre os conceitos acima elencados, do citado livro, “Seis propostas para o próximo milênio” e a educação brasileira, levando em consideração que esta necessita de uma grande modificação, para dar conta de atender à atual conjuntura.

O que a literatura, sem adentrar nos méritos ou definições dessa área do saber, têm em comum com a Educação, sobretudo, no Brasil? Pode-se responder sem titubear: tudo! A maioria da população brasileira, reconhece a importância da literatura, para a competência leitora, escritora e para a construção da criticidade, tanto com relação ao docente, como ao discente.

O “ensino da ‘literatura’ está em consonância com o ponto de vista segundo o qual, assim como a educação (escolar), a literatura é um direito humano e desempenha papel fundamental na formação humana”, segundo Mortatti (2014), levando dessa maneira o sujeito a se tornar autônomo. Assim sendo, deparamo-nos com duas ferramentas poderosas para a construção da cidadania: a Educação e a Literatura, ambas “faculdades políticas dos homens”, Arendt (1979:277) apud Mortatti.

A função da Educação, vai para além da formação de competentes leitores e leitoras; escritores e escritoras. No entanto (grifos nossos), de acordo com a autora, “podem ser complementares entre si” e aponta três confluências: 1. “educação da literatura, ou seja, a literatura (em si e por si) educa/ensina”; 2. “educação pela literatura, ou seja, a literatura é meio (não é instrumento) para a educação humana”; 3. “educação para a literatura, ou seja, a literatura é, ela mesma, objeto de ensino, visando à educação literária”, em outras palavras, a Educação Escolar, não anula a Educação Literária e vice-versa. É uma ferramenta de amplificação do conhecimento, de multiplicação de culturas, de histórias e de mundos.

A importância do ato de ler, deve desenvolver nos/as professores/as, o conhecimento e a “fruição estética”. Esses só podem “saber a importância de lutar pela conquista, para si, do direito à literatura,” como também o direito à Educação, e ainda expandir esse conhecimento junto aos seus estudantes, sobre a “importância da literatura”, se se tornarem também leitores, salienta Mortatti (idem), por conseguinte refletindo em todo o processo sócio-cultural e educacional.

Em qualquer prática profissional, seja na Educação, ou em outra área, é exigido todo o tempo, para todos os especialistas, formações que com seus meios e modos específicos, podem contribuir para dar aos professores e professoras, caminhos para desenvolverem a “leveza”, a “rapidez”, a “exatidão”, a “visibilidade”, a “multiplicidade” e a “consistência”, no seu universo escolar, diante de um mundo em constante movimento e transformação. Esses conceitos ou categorias, são instâncias do conhecimento e dialogam permanentemente com o saber sistematizado.

 O escritor dizia que, “ser capaz de colocar continuamente em questão as próprias opiniões é, a condição preliminar de qualquer inteligência”. Em outras palavras, todos precisam estar continuamente se formando e reformulando, faz parte da dinâmica da vida. O novo envelhece muito rapidamente nessa sociedade pós-moderna, em que tudo (e todos) é (são) descartável(is) e substituível(is).

Trazendo especificamente para o campo da Educação, sabe-se que nesse conjunto de saberes, habilidades e competências, o fato de ter em sua natureza a função transformadora, é permanentemente desafiada a responder às mudanças e às nuanças pelas quais a sociedade se transmuta em todas as épocas. O axioma de que “cada ramo da ciência, em nossa época, parece querer nos demonstrar que o mundo repousa em entidades sutilíssimas”, aparenta encontrar aporte nessa máxima, como releva Calvino (1990:20).

Há uma inquietação comum à comunidade educacional e à comunidade educativa: como se processará a Educação no pós-pandemia? Decifre quem souber! Como ter uma reposta a contento para um momento que transita “ora entre o dramático e ora entre o grotesco” e a “opacidade do mundo” atual? Que lição se pode tirar de tudo isso? Como trabalhar com a leveza, diante de um cenário tão incomum e tão frágil?

 O “ser humano é, muitas vezes, socialmente maleável e moldável às circunstâncias, está num constante movimento de transformação, embora frequentemente não se dê conta disso”, consoante Colares (2009). Mediante situações delicadas, como a que ora se nos apresenta, “é preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”, ensinava Paul Valéry apud Calvino (1990:28).

Algumas vezes o que se necessita está no horizonte descortinado, mas nem sempre se vê, muita gente está com os olhos destreinados, já não se enxerga o óbvio, mas até esse gesto de desatenção “abre caminho a reflexões infindas”, dizia Calvino (idem: 41).

Com que rapidez se construirá nesse “novo normal”, um panorama para a Educação, que há muito já vêm cambaleante? E que no Brasil, se apresenta de formas variadas, nessa imensidão geográfica, tendo se convertido num grande problema político de primeira ordem? E como fica o tempo de aprendizagem do estudante? Concorde alguns autores, isso envolve muitos outros aspectos. Embora a Educação seja um problema em escala global, nos países considerados de “terceiro mundo”, como o Brasil, por exemplo, ele se torna mais grave, pois é de fato em princípio, de natureza eminentemente política.

A quem interessa um povo letrado, culto, politizado? A Educação não devia se transformar em “um instrumento da política e” nem “a própria atividade política ser concebida como uma forma de educação”, Arendt (s.d.). Não deve ainda ser um privilégio de poucos, de ricos, mas de todos, para todos. Contudo, existe um consenso que é necessário usar da ligeireza para a prioridade e revalorização da Educação e do(a) professor(a).

Não obstante, como reacender a importância da Educação, para uma grande parcela da sociedade, que pouco se dá conta da importância de tão significativo instrumento de transformação? Com que exatidão isso se dará? Aliás, se dará? Especulações à parte, se há algo exato no caráter da Educação, é que sem ela, nada muda. É ela que em seu movimento de in-formação contribui, sobremaneira “para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a” conforme Freire (2000:76). Têm uma força e um poder revolucionários, ao se considerar que esse processo de socialização e integração, conduz o ser à libertação, e é um ativador da capacidade cognoscitiva.

        Em sua função social, atua como anticorpo da ignorância, promove a aprendizagem, “a construção, a reconstrução e a constatação para a mudança”, assinala Freire (2000:77). É decorrente da existência em comunidade e deve elevar o nível da qualidade da própria vida e dos demais membros. Essa visibilidade transformadora, pode até ser entendida como uma “luta de classes”, porque “não é possível entender a história sem as classes sociais, sem seus interesses em choque”, posto que “a luta de classes não é o motor da história, mas certamente é um deles”, assente com Freire (2008:91). Não é do desconhecimento de muitos, que a Educação pública no Brasil, perece há muito tempo e, parece legitimar as desigualdades sociais.

        Tendo o país uma multiplicidade étnica desde a sua gênese, “sua gestação como povo, surge da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos”, acordante Ribeiro (2016:17), o Brasil foi constituído sobre grande estratificação social. Visto até hoje como uma empresa, para garantir lucros a uma minoria de ricos, os ungidos e detentores de todos os direitos, inclusive de uma Educação superiorizada, onde só essa casta endinheirada pode ter acesso. Restando aos desfavorecidos, uma Educação sucateada e sem qualidade, tornando mais fácil a segregação. É preciso mais que nunca do sonho da igualdade, tanto quanto da imaginação, da utopia, do “inédito viável”, como propunha Freire (2008:91), a Educação é esse lugar.

        Contudo para que a Educação brasileira tenha consistência, é preciso democratizar (de fato e de direito) o acesso a todas às pessoas, não somente como figura de retórica, mas como uma ação comprometida de políticas públicas, que contemplem qualquer cidadão(ã) brasileiro(a), no mais distante e inóspito rincão desse torrão. Que se desconstrua o discurso da acomodação, que se repudie a negligência, e que todos tenham a “convicção de que a mudança é possível”, como afirmava Freire (2000:85).

Se faz necessário e premente que a sociedade brasileira não aceite a “aguda escassez de recursos destinados à Educação”. Que comunitariamente defenda e reivindique a aplicação das taxas e contribuições pagas, para garantir esse bem público, para isso também que elas existem. A Educação Pública é de todos nós! É mister que cada um, que cada uma, considere o mundo em rede que se vive, para além das conexões virtuais, é “preciso mudar de ponto de observação”, que todos precisam “considerar o mundo sob uma outra ótica”: a da coletividade.

Pelo exposto, parece pertinente perguntar: quais propostas de Educação são essenciais para este milênio?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARENDT, Hannah (s.d.). A Crise na Educação. Disponível em:<http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/otp/hanna_arendt_crise_educacao.pdf> Acesso: 06.10.2020.

 

CALVINO, Italo (1990). Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Tradução Ivo Barroso. - São Paulo : Companhia das Letras.

 

COLARES, V. (2009). Avaliação da Formação: um percurso pessoal. Dissertação de Mestrado, apresentada ao júri, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Portugal, aprovada em setembro de 2009.

 

EDUCAÇÃO EM CRISE E EXTINÇÃO DA ESCOLA Disponível em: <https://monografias.brasilescola.uol.com.br/educacao/educacao-crise-extincao-escola.htm> Acesso: 06.10.2020.

FREIRE, Paulo (2008). Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio De Janeiro: Paz e Terra.

FREIRE, Paulo (2000). Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo. Paz e Terra.

MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Na história do ensino da literatura no Brasil: problemas e possibilidades para o século XXI. Educ. rev., Curitiba. n. 52, p. 23-43, jun. 2014. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602014000200003&lng=pt&nrm=iso>. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/0104-4060.36317.> Acesso: 06 out. 2020.

RIBEIRO, Darcy (2016). O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. - 3. ed. São Paulo: Global.

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 10/10/2020

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Palavras-chave: QUAIS PROPOSTAS DE EDUCAÇÃO SÃO ESSENCIAIS PARA ESTE MILÊNIO?

Fonte:

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