• Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
  • Agora Santa Inês -
Agora Santa Inês - “AvaliEleição”

“AvaliEleição”

“O Analfabeto Político

 

O pior analfabeto, é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,

O preço do feijão, do peixe, da farinha

Do aluguel, do sapato e do remédio

Depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que

Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.

Não sabe o imbecil,

Que da sua ignorância nasce a prostituta,

O menor abandonado,

O assaltante e o pior de todos os bandidos

Que é o político vigarista,

Pilantra, o corrupto e o espoliador

Das empresas nacionais e multinacionais”.

 

Bertolt Brecht O dramaturgo, romancista e poeta alemão, ao conceituar alguém como “analfabeto político”, parece que estava se referindo às pessoas que não se interessavam pela vida política. Essa indiferença, essa alienação e alheamento repercutiam, repercutem diretamente sobre a vida de todos, sobre os destinos, os cenários econômicos, culturais e sociais da cidade. Um homem (mulher) não politizado(a), não sabe da importância e da força que têm.

Para Brecht, a dimensão política do ser humano é construída num longo processo de aprendizagem, em todos os espaços sociais, dos mais simples aos mais complexos contextos. É esse exercício que permite a superação dos desafios e conflitos para o desempenho efetivo e pleno da cidadania. Estar consciente de que numa sociedade democrática, é assegurado que todos e todas têm o direito à liberdade de pensamento, a manifestar sua opinião, a professar seu credo religioso, sua ideologia e sua escolha afetiva, sem ser atacado ou condenado por isso.

O autor chama/va a atenção no poema, sobre o fato de que alguns dos produtos assinalados, dependem de decisões políticas: o valor da passagem nos ônibus e em outros transportes, o preço da gasolina e demais combustíveis, são controlados pelas decisões políticas. As leis trabalhistas, o regime de trabalho e a carga horária. A política fiscal com as taxas e cobranças de impostos. O controle ou não de filmes, espetáculos, exposições de arte, tudo está sob os olhos das leis. Os serviços públicos essenciais, como o fornecimento de água, esgoto, energia elétrica, telefonia, gás, tudo que envolve a sociedade é uma questão política

Ao ignorar tais fatos, os “analfabetos políticos”, sofrem consequências e ao mesmo tempo, as imputam a outrem e, sequer se dão conta, ressalta o dramaturgo. É desse desconhecimento que “nasce a prostituta, o menor abandonado e, o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”, entreguista dos recursos naturais, além da própria subserviência, descomprometido com o povo, humilhando-o em suas decisões unilaterais, não defendendo a soberania, tornando-se lacaio dos países imperialistas, como no caso presente, a submissão do governo brasileiro, diante dos E.U.A.

Não se pode governar encalacrado no atual modo de “segurança pela ruína”, coincidente Maquiavel (2013:26). O país assiste a um governo cujo modus operandi é de desmonte institucional, de perdas de garantias sociais, aparelhamento de órgãos públicos, indiferente à agricultura familiar, aos pequenos empreendedores, desprezo pela população original, pela vida, exercendo a substituição de uma política de Estado, por uma de governo, debalde da gravidade dessas ações.

É sabido que “o desinteresse pela política tem consequências econômicas e sociais que afetam todas as pessoas, tanto as que participam ativamente da política como aquelas que se abstêm”. Assim sendo, o desprezo pela política e tudo que lhe diz respeito, leva ao risco de não saber o que é de fato responsabilidade dos nossos representantes e, o que se deve cobrar deles.

Em sua obra, “A República”, o filósofo grego, Platão (428-347 a.C), concebe o que seria no seu entender, a justiça e a cidade ideal, que deveria ser governada de forma harmônica, voltada aos interesses da comunidade e, não ao desejo particular do gestor, cuja administração deve ser baseada no saber, no “conhecimento pleno”. É no livro IV, no diálogo entre Sócrates e demais convidados, na casa de Polemarco, que o pai da Maiêutica e da Ironia, conclui que “o equilíbrio e a harmonia entre as partes da cidade”, é uma “forma de Justiça”.

Aristóteles (séc. IV a.C.), afirmava que o homem é um ser político por natureza, corroborando que a “política não acontece apenas nos meses que antecedem as eleições e tão pouco se resume ao dia da votação”, mas está presente em todas as relações, “a política é feita todos os dias, por todos os cidadãos e não apenas por aqueles que foram escolhidos para nos representar”.

O nosso texto anterior, tratou de refletir um pouco sobre a Avaliação, no âmbito da Educação sistematizada, da sala de aula e das aprendizagens escolares. Que por sua vez, não está dissociada do tema que hoje abordaremos: a Política! O título que dá nome a este ensaio, não foi pensado à toa, uma vez que uma eleição versa também sobre a avaliação que faremos dos(as) candidatos(as) e das suas propostas de governo.

Com o intuito de entendermos melhor sobre o hoje, se faz necessário recuar no tempo, alguns séculos atrás e compreender a forte ligação do passado com o presente, alguns conceitos que estão no nosso cotidiano desde há muito. Entre esses a Democracia e a Política.

Ao longo da história, dois elementos foram fundamentais para a manutenção da espécie humana: o medo e o apoio coletivo.  Sabe-se que o medo “é uma reação de alerta muito importante para a sobrevivência dos seres humanos”. De acordo com Zatz (2012:12), “o ser humano depende de outros para sobreviver e, desde os tempos mais antigos, os indivíduos se juntam para se proteger, conseguir alimentos, cuidar dos filhos. E escolher líderes”.

A segurança desenvolvida coletivamente pelo homem pré-histórico, entre outras revoluções, levou ao aumento da população e as sociedades foram se complexificando. O enriquecimento de uns, em detrimento de outros e, a tomada de poder por aqueles, ocasionou o surgimento da Democracia, por volta do século V a.C, em Atenas, na ocasião, uma cidade-Estado da Grécia. Isso foi um grande avanço para a humanidade.

Democracia é uma expressão de origem grega, composta pelos termos démos, que significa "povo" e, krátos, que significa "poder". Em outras palavras, democracia é o governo do povo, ou da maioria. O termo se estende também “a comunidades ou grupos organizados onde todos os indivíduos participam da tomada de decisões de forma participativa e horizontal”. Por volta do século V a.C. os gregos se reuniam em assembleia, Na Ágora (praça pública ou mercado), para discutirem os problemas da cidade e decidirem sobre as escolhas dos dirigentes, “entre os cidadãos e estes podiam ser derrubados”, assinala Zatz (idem). Naquela altura a democracia exercida, desprezava “mulheres e escravos”, porque “não eram considerados cidadãos, portanto não podiam participar”, prossegue a autora. De lá para cá, é sabido os avanços, como também alguns retrocessos, em determinadas sociedades.

No Brasil, por exemplo, as mulheres só puderam votar e ser votadas, em 1934, apesar dos dados de 2019, “da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua)”, informar que “o número de mulheres no Brasil é superior ao de homens. A população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres”. No entanto, mesmo vivendo no século XXI, onde muitas comunidades conquistaram direitos, “existem países nos quais as mulheres não têm direitos iguais aos dos homens, como na Arábia Saudita, por exemplo”, descreve a autora (idem:25).

Mas... e quanto à política, o que é política, para quê política, quem precisa de política? Diariamente usamos a palavra “política” em vários momentos e situações, porque todas as relações são mediadas pela política. Desde a “política da boa vizinhança”, “política da empresa”, “política da escola”, “política da igreja”, nas reuniões familiares, de lazer, à referência das “estruturas” de “poder interno” e externo.

A palavra Política vem do termo grego, pólis, significa cidade, ou seja, a política “é a arte de governar, de gerir o destino da cidade”, conforme Aranha (2012:225), por conseguinte dos cidadãos e cidadãs, daqueles que votam, como dos que não exercem esse direito de cidadania. É “a atividade por excelência que diz respeito à vida pública”, continua a professora.

Consoante Aristóteles (século IV a. C.), apud Silva (2014:7), “a busca da realização do homem individual está inserida na realização política da polis, pois mesmo que o bem seja idêntico tanto para um indivíduo quanto para a cidade, revela-se melhor e mais perfeito compreender e preservar a cidade”, o que significa dizer, a consequência dos atos “dos indivíduos, dos cidadãos virtuosos unidos em philia” em amor fraterno, amizade, resulta no bem da cidade, da polis.

 A política é essencialmente uma atividade humana. Não se imagina o povo, a sociedade “sem alguma forma de política”, adverte Aranha (2012:225), no entanto, nem todos tem esse conhecimento, provavelmente, seja essa uma das razões pela qual, nem todos analisam de forma crítica, “esse modo de agir coletivo”, continua a autora. É sabido que existe “uma desigualdade de facto entre aquele que sabe e aquele que não sabe”, concorde Balibar (1993:81). O cidadão, a cidadã, não pode esquecer que a política exercida por um agente escolhido pela coletividade, é sinônimo de poder, outorgado pelo(a) eleitor(a), portanto, é imprescindível avaliar as propostas dos(as) candidatos(as), qual o compromisso assumido com a comunidade, preconiza um governo de inclusão ou de privilégios para os ricos?

Uma eleição pressupõe uma avaliação, uma aprovação ou não, a continuidade (ou não) da delegação deste(a) ou daquele(a) mandatário(a) político que está exercendo o cargo e, se desaprovado(a), pelo povo, não será reeleito(a). Se agiu, se produziu “os efeitos desejados sobre os indivíduos, ou grupos humanos”, concorde Aranha (ibdem), como também para a maioria da população. Caso não, que a sociedade dê oportunidade para que outros candidatos ou candidatas possam exercer seu encargo, com base nas propostas apresentadas, durante a campanha. Um(a) prefeito(a), além de íntegro, deve ter compromisso ético e moral, pois representa um alto custo para o contribuinte, seja do ponto de vista material, social e emocional.

Que todos os(as) eleitores(as) brasileiros(as) estejam atentos no próximo domingo, dia 15.11.2020, que façam uma seleção coerente com os princípios probos, corretos, honrados, com proposições justas, que contemplem toda a comunidade. Que cada um(a) tenha plena consciência do poder que estão facultando aos (próximos) prefeitos (as) e vereadores(as), para cuidarem da cidade, dos destinos destas e da sua gente. Todos nós temos poder, interessa saber sobre quem esse poder é ou será exercido e, com qual objetivo.

Nesta continuidade, que seja feita uma boa AvaliEleição, sobre aqueles e aquelas que nos vão governar nos próximos quatro anos. Não esquecendo, todavia, que todas as decisões repercutirão de maneira global na sociedade. “Toda política é coletiva”. Desejo a todos e à todas, boas escolhas!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARANHA, Maria da Graça (2012). Filosofar com textos: temas e histórias da filosofia. São Paulo: Moderna.

 

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda (2006). Filosofia da Educação. 3. ed. rev. e ampl. – São Paulo: Moderna.

 

ARISTÓTELES (2016). Ética a Nicômaco. Tradução e notas Luciano Ferreira de Souza. – São Paulo: Martin Claret.

 

KECHIKIAN, Anita (1993). Os Filósofos e a Educação. Tradução Leonel Ribeiro dos Santos. Edição Colibri. Lisboa.

 

MAQUIAVEL, Nicolau (2013). O Príncipe. Tradução de Hingo Weber – 4. ed.

Petrópolis, RJ: Vozes.

 

VOLTAIRE (2002). Dicionário filosófico. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret.

 

ZATZ, Lia (2012). Fazer política para quê? Ilustrações de Osi Nascimento. – 1 ed. – São Paulo. Moderna.

 

Disponível em: <https://revistaforum.com.br/noticias/119-anos-de-brecht-e-o-analfabeto-politico-continua-a-existir/> Acesso: 10.11.2020.

 

Disponível em:< https://armazemdetexto.blogspot.com/2018/03/poema-o-analfabeto-politico-bertold.html> Acesso: 10.11.2020.

 

Disponível em: <https://blogdoenem.com.br/analfabetismo-politico-filosofia/> Acesso: 10.11.2020.

 

Disponível em: <https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html>.Acesso: 10.11.2020.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post:

Data: 14/11/2020

Visitas: 107

Palavras-chave: “AvaliEleição”

Fonte:

Big Systems
8005380 visitas no Portal www.agorasantaines.com.br hoje 01 do mês 12 de 2020