Agora Santa Inês - QUARTO DE DESPEJO, 60 ANOS DO DIÁRIO DE UMA FAVELADA, CAROLINA MARIA DE JESUS

QUARTO DE DESPEJO, 60 ANOS DO DIÁRIO DE UMA FAVELADA, CAROLINA MARIA DE JESUS

Esse Artigo foi publicado na página de Literatura deste Jornal AGORA Santa Inês, no mês de agosto do ano passado, 2020, escrito especialmente para este Jornal pela Carioca  Magna Domingues, que é professora de sala de leitura, psicóloga e contadora de histórias (foto). E agora em homenagem ao título recebido por Carolina Maria de Jesus, fazemos questão de republicá-lo.

Carolina Maria de Jesus viveu em São Paulo, onde teve três filhos, que criou sozinha, morando na favela do Canindé e trabalhando como catadora de papel.

Do lixo, Carolina também retirava livros que lia e cadernos nos quais escrevia. Sim, ela era amante das Letras e das Artes. Quando criança, estudou por apenas dois anos na escola onde foi alfabetizada, mas nunca abandonou a paixão pela leitura e pela escrita.

“23 de julho (...) comecei a fazer o meu diário. De vez em quando parava para repreender os meus filhos (...) Quis saber o que eu escrevia. Eu disse ser o meu diário. –Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você. Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler.”

QUARTO DE DESPEJO é o título do diário que remete a uma metáfora criada pela autora. Segundo ela, o centro da cidade é como uma sala de visitas e a favela é o quarto de despejo da sociedade. O livro, que está fazendo 60 anos de lançamento nesse mês de agosto, traz uma escrita testemunhal, um relato do cotidiano na favela, da mãe solo que batalha diariamente pelo sustento dos três filhos, da luta contra fome e também um olhar muito crítico sobre as governanças e sobre a necessidade de políticas públicas para o bem estar da população. Uma autora que é poetisa e também uma visionária do campo político.

“... Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.”

Esse é o seu primeiro e mais famoso livro, traduzido em 13 idiomas, é um sucesso que escancara os cânones literários ao revelar o talento e a perspicácia de uma mulher negra escritora na década de 60. No entanto, esse frenesi em torno de Carolina passa e a autora acaba caindo no ostracismo. Ela não para de escrever, mas infelizmente suas outras obras não tiveram a mesma aceitação enquanto ela estava viva. Morreu no ano de 1977, em condições de vida bastante humildes.

É muito importante destacar que Carolina definitivamente não é autora de um livro só, ela escreveu biografia, poesias, contos, provérbios e até mesmo músicas, que ela mesma cantou. Sua obra é extensa e valiosa, mas o elitismo e o racismo dominante na literatura e na sociedade fizeram com que essa grande autora brasileira ficasse no esquecimento e desconhecimento por um longo tempo. E ainda mais grave, não permitiram que essa mulher negra, ex-favelada, que lutou durante muitos anos contra a fome e miséria, desfrutasse do merecido reconhecimento social e material em vida.

Felizmente, em 2020, a movimentação de pesquisadoras e escritoras brasileiras, incluindo a sua filha Vera Eunice, faz com que uma grande editora – a Companhia das letras – anuncie a reedição das obras de Carolina, fazendo com que ela finalmente alcance o lugar merecido, lugar de autora conhecida e lida, como ela sempre desejou ser.

“9 de maio... Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.”

Carolina Maria de Jesus, conhecida como a catadora de papel que escreveu o diário de uma favelada, representa muito mais. Ela foi uma grande contadora de histórias, uma cientista política, uma poetisa e uma artista completa. Ler Carolina é um prazer e falar de Carolina é um dever de todas e todos que se comprometem com a luta antirracista e com a História do povo negro brasileiro que precisa sair do apagamento. Como dizia a própria autora:

“Uma palavra escrita não pode nunca ser apagada. Por mais que o desenho tenha sido feito a lápis e que seja de boa qualidade a borracha, o papel vai sempre guardar o relevo das letras escritas. Não, senhor, ninguém pode apagar as palavras que eu escrevi”.

Obrigada Carolina!

 

*Magna Domingues é professora de sala de leitura, psicóloga e contadora de histórias. Idealizadora do projeto Baú Encantado, que realiza contações de histórias infantis, e também fundadora do Clube do Livro Preta, um projeto com encontros mensais para dialogar sobre livros escritos por mulheres negras.

Email: [email protected] Instagram: @maggnadomingues

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 30/11/-0001

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