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Agora Santa Inês - CRISTO GUARDA O ÚLTIMO GESTO

CRISTO GUARDA O ÚLTIMO GESTO

Weliton Carvalho é professor da UFPI e escritor

Nesses tempos de pandemia, a única saída é Deus, a fé em Cristo crucificado. Católico praticante que sou, estou lendo a biografia do padre Pio [RUFFIN, C. Bernard. Padre Pio: a história definitiva. Trad. Murilo Resende Ferreira. Dois Irmãos (RS): Minha Biblioteca Católica, 2020]. E nesse livro há um episódio tão interessante quanto instigante, que vou resumir por falta de espaço. Um homem rico e moribundo não acreditava em Deus e pediu para seus companheiros impedirem a entrada de padre para lhe dá a unção dos enfermos. Acontece que sua mulher, católica fervorosa, estava grávida e deu à luz. Era costume a criança ser batizada no dia seguinte ao seu nascimento. Então por isso foi permitido o padre entrar na mansão tão apenas para batizar o nascituro. No entanto, um milagre aconteceu: o homem saiu do coma e pediu a unção dos enfermos. Pediu perdão por seus pecados, voltou ao coma e no dia seguinte faleceu. Anos depois o padre Pio que tinha visões de Jesus e Maria disse à mulher do morto: — Deus aceitou o perdão de seu marido e ele foi salvo.

Essa história me voltou à mente pela postagem do Dr. Valdevino Cabral Filho, ex-prefeito de Santa Inês, que usou as redes sociais para se manifestar sobre o falecimento do meu tio José Gabriel de Sousa, que foi seu companheiro de chapa na eleição de 1988, na condição de vice-prefeito, pleito do qual lograram sucesso. Essa a declaração do Dr. Valdevino Cabral Filho: “Um ser humano fantástico, no início de nossa caminhada política em Santa Inês, Dr. Gabriel foi ao meu lado candidato a vice prefeito (sic) no ano de 1988, com muito esforço vencemos as adversidades e logramos êxito na nossa primeira eleição. Foi um grande parceiro de lutas, deixará legado de compromisso e lealdade ao seu povo e sua profissão! DESCANSE EM PAZ COMPANHEIRO GABRIEL”.

Meu pai, Aldir Carvalho, chegou em Santa Inês em 1961 na companhia de meu tio João Luís de Sousa, ambos iriam trabalhar na loja São Vicente, de propriedade do sr. Severo José Corrêa Neto, na condição de gerente e sub-gerente, respectivamente. Meu tio João Luís de Sousa se meteu na política e foi vice-prefeito do senhor Biné Sabak, numa campanha da qual a minha mente infantil guardou o refrão (“Biné e João Luís é assim que o povo diz/ João Luís e Biné é assim que o povo quer”). Depois meu tio João Luís foi preterido por diversas oportunidades ao cargo de prefeito. Em 1977 ou 1978 meu tio José Gabriel de Sousa chegou a Santa Inês para se estabelecer como médico. E tinha muito gosto pela política e nela se meteu para a contrariedade de parte da nossa família, inclusive de minha mãe, Theresinha Sousa, que sempre entendeu que ele deveria se dedicar à sua profissão. Afinal era o primeiro dos oito filhos dos meus avós maternos que conseguiu obter diploma em curso superior. Mas a política é uma paixão. Meteu-se nela. Lançou candidatura, salvo engano pelo PDT. Até meu pai que nunca gostou de política – para sossego de nossa família – participou desse processo pela amizade que tinha com Dr. Jackson Lago (a minha irmã mais nova foi colega de uma das filhas do Dr. Jackson, no tempo de escola).

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A política – embora seja uma paixão – segue uma linha de racionalidade. Naquele pleito de 1988, ao que me lembre Dr. Valdevino  Cabral Filho era alguém desconhecido, engenheiro do DNER. Precisava da legitimidade das pessoas já estabelecidas em Santa Inês para conquistar a eleição. Fato é que a união entre Dr. Valdevino Cabral Filho e meu tio José Gabriel de Sousa era fundamental para derrotar a chapa opositora formada por Marconi Farias-Aquino. Há aqui uma curiosidade quase pitoresca e típica dos acordos políticos: o entabulamento para a construção da chapa Cabral-Gabriel foi realizada na casa do Dr. Valdevino Cabral Filho, no DNER, precisamente na alcova (como se sabe alcova é o nome antigo para quarto de dormir). E, apenas para registro, muitos dos pontos do acordo caíram no esquecimento e nunca foram cumpridos, segundo uma testemunha presencial do evento. Se tio José Gabriel de Sousa mantivesse a candidatura a prefeito, a chance de vitória, naquela oportunidade, seria de Marconi Farias. Desse modo, meu tio José Gabriel de Sousa se tornou a pedra angular do pleito de 1988 em Santa Inês.

Bem, meu tio José Gabriel de Sousa foi nomeado secretário de saúde do município de Santa Inês. E logo depois foi exonerado. Não teve participação de relevo no governo do Dr. Valdevino Cabral Filho. Com esses fatos meu tio José de Gabriel de Sousa – tal qual já tinha ocorrido ao seu irmão e meu tio João Luís de Sousa – deixou a política partidária ou ela o abandonou. Seja como for foi viver como médico o que deveria ter feito desde sua formatura como sempre foi desejo de minha mãe. Por esses e outros eventos não tenho gosto pela política e não raro digo à mesa para meus filhos na hora do almoço: — Nunca se metam em política.

Então por esses fatos que acabo de narrar não posso deixar de ficar surpreso com as declarações do Dr. Valdevino Cabral Filho, pois não pensava que ele tinha tanto apreço por meu tio Gabriel. Exatamente por isso, Dr. Valdevino Cabral Filho, as suas palavras acalentam os nossos corações enlutados. Se naqueles a que pensávamos que o nosso José Gabriel de Sousa tinha gerado algum desagrado saem palavras de tanto afeto, é prova cabal de que meu tio cultivou o cristianismo aqui na terra. Foi de fato um homem bom, generoso, de risada fácil e incapaz de guardar rancor de quem quer que fosse. Se o vírus que o atacou transmitisse o ódio nenhum mal teria lhe causado. Ele era incapaz de odiar.

Dr. Valdevino Cabral Filho, talvez o senhor nem mais se lembre de mim. Em 1988 eu era apenas um jovem. Deus me deu a maior das graças: ser caboclo do Vale do Pindaré. Não peço a Deus nenhum outro título. Esse me basta: caboclo do Vale do Pindaré. Ah, Dr. Valdivino Cabral Filho, como me orgulho disso. E só disso. Fui menino pobre em Santa Inês, amigo de outras crianças pobres e até miseráveis. Evito voltar a Santa Inês, porque já tive tantas perdas por aí e o poeta tem uma rachadura na alma. Como o senhor continua na vida política, se Deus lhe conceder a oportunidade de voltar a ser prefeito, peço e até lhe imploro: — Olhe pelos nossos irmãos pobres e miseráveis de Santa Inês. Com eles só posso fazer poemas, mas um prefeito pode lhes ajudar a mudar seus destinos de dor e desamparo.

Por fim, gostaria de acrescentar apenas isso: todos nós viemos a esse mundo agraciado pela dádiva da vida e Jesus Cristo nos espera até o último instante e só guarda de nós o último gesto. Esse seu último gesto para com o nosso José Gabriel de Sousa é que ficará em nossos corações. Deus esteja sempre contigo. Paz e Bem.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 01/04/2021

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Palavras-chave: CRISTO GUARDA O ÚLTIMO GESTO

Fonte:

Big Systems
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