Agora Santa Inês - A LINGUAGEM PÓS-MODERNA DE CARVALHO JUNIOR

A LINGUAGEM PÓS-MODERNA DE CARVALHO JUNIOR

“o mundo ainda não tem os olhos/

rasgados/ pela cápsula do sombrião”.

Gravei, com o querido poeta Neurivan Sousa, uma live em que discutíamos a linguagem pós-moderna do livro O homem-tijubina do poeta e ativista cultural Carvalho Junior. O autor caxiense faleceu em março de 2021 (vítima da pandemia e do pandemônio que arrasou com as forças do país).

Estávamos comovidos. Estamos ainda comovidos. Carvalho deixou sua marca nos afetos da literatura contemporânea. Era um homem de diálogos coletivos. Nunca pensou dentro de uma caixa de fósforo. Queria “de mãos dadas” alçar voos pelo oceano da Língua Portuguesa.

Estou convicto que ele conseguiu.

O homem-tijubina & outras cipoadas entre as folhagens da malícia (edição bilíngue) foi lançado pela Editora Patuá, em 2019. São setenta e quatro páginas de um mito em construção. O trabalho gráfico é primoroso. Celso Borges diz no último parágrafo da apresentação: “o poeta é um gato do mato perseguindo a cauda do vento selvagem”. Ai dele se virar um gato de fitinha no pescoço.

Carvalho sabia - de vivência - os versos: “o lugar da poesia é o da oposição”. Portanto, nunca será um felino adestrado.

O fragmentário da linguagem é nítido em algumas construções, na poética carvalhiana. As alterações na linearidade das cenas que o fazem voltar a muitas lições de Oswald de Andrade. Os dois antecipavam novas semióticas na composição do poema.   

No poema CIPOADA (IV), lemos:

 

gravou a tijubina na areia intensa de febre

- com o pitoco de rabo mutilado sobre

uma folha também rasgada de mágoas –

 

:

te amo do tamanho da minha fuga!

(CARVALHO JUNIOR, 2019, p. 40)

Carvalho teceu a trama do verso. Ficamos esperando mais imagens. O fôlego alongado, mas ele resolve cortar as expectativas do leitor e encerra o texto bruscamente: te amo do tamanho da minha fuga.

É uma forma de surpreender e pregar nos olhos do interlocutor.

O personagem-tema está representado ao longo das seções, na obra. Santos afirma que o simulacro é caraterística fundante da pós-modernidade. Com consciência o poeta molda uma semiose própria, como podemos constatar em:

 

TIJUBINA`LMA   

 

das nenhumas almas que tenho

treze têm o corpo de tijubina,

a cabeça esfolada de pedra,

a carne exposta ao sol da sorte.

 

a dor que me chora em sangue

é a mesma que em quimeras ri.

 

quanto mais me decepam o ânimo,

mais recomponho a tinta da teimosia.

 (CARVALHO JUNIOR, 2019, p. 42)

O crítico literário Ranieri Carli afirmou num ensaio para Revista Mallarmagens: “ A poesia de Carvalho é forte em imagens. O poder evocativo das imagens de sua poesia reluz fortemente”.

Ele tem razão, em destacar o trabalho imagético do poeta.

Os sistemas significantes vão se construindo em O homem-tijubina com uma força surpreendente. Carvalho Junior deu cipoadas na poética da nossa quadra histórica e colocou a cabeça acima das folhagens.

 

Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018).

Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório.

Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia.

É membro da Academia Poética Brasileira. 

 

e-mail: [email protected]

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 11/09/2021

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Palavras-chave: A LINGUAGEM PÓS-MODERNA DE CARVALHO JUNIOR

Fonte:

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