Agora Santa Inês - TEXTO DO ACADÊMICO JOSÉ NERES, QUE ABRE O LIVRO

TEXTO DO ACADÊMICO JOSÉ NERES, QUE ABRE O LIVRO "CINELÂNDIA":

Paulo Rodrigues e as palavras em movimento

José Neres

(Professor. Membro da AML e da Sobrames)

 

Este é um livro de palavras e de imagens. As palavras que aparecem nos poemas desta obra, apesar de estarem fixas em uma folha de papel, compõem, aos olhos dos leitores, uma série de cenas que se multiplicam e ganham vida a cada virar de página.

Paulo Rodrigues, o autor deste e de outros livros premiados, é o tipo de poeta instigante e inteligente, cuja formação intelectual não se resume apenas aos bancos de uma universidade, onde professores e disciplinas se sucedem em uma sequência didática e cronológica que busca levar o discente não apenas ao mundo do conhecimento, mas também à conquista de uma titulação. Basta começar a ler seus poemas para perceber-se que, além do conhecimento acadêmico, o autor de O abrigo de Orfeu investiu boa parte de seu tempo em leituras, tanto dos autores clássicos quanto dos contemporâneos. E isso pode fazer toda a diferença!

Experiente no trato com a linguagem poética, Paulo Rodrigues não se contenta apenas em colocar palavras alinhadas em versos e estrofes na busca das melhores soluções verbais para os muitos problemas que lhe são apresentados pela vida ou pela inquietante observação do mundo. Ele aproveita a essência, a força e a beleza da poesia para trazer à tona das palavras os variados silêncios que permeiam as diversas mazelas que massacram o povo e incomodam quem realmente se preocupa com as inúmeras bifurcações que se apresentam nos múltiplos caminhos da vida.

 E são essas vozes silenciadas pelas opressões e sociais que têm oportunidade de reverberar seus gritos de dor, medo e angústia nas páginas de Cinelândia. Poema a poema, diversos frames de sintéticas narrativas se desnudam aos olhos do leitor. Assim como numa casa de espetáculos, onde há espaço para as mais variadas manifestações artísticas, desde os dramas íntimos até as abordagens de cunho erótico, perpassando pelas incômodas fraturas sociais, neste livro o leitor vê projetadas nas páginas impressas infinidades de situações que o levarão a um olhar mais reflexivo sobre a realidade circundante assim que levante a cabeça para continuar seus passos rumo ao necessário cotidiano.

A concisão da linguagem é uma das características mais admiráveis na poética de Paulo Rodrigues. Com poucas, porém certeiras palavras, ele nos conduz pelas intrincadas sendas que são construídas em forma de labirinto. Não de um labirinto à moda borgeana, mas também elaborado com uma composição vernacular capaz de sufocar quem se julga livre das mazelas sociais e, ao mesmo tempo, libertar os prisioneiros das escolhas das indecifráveis escolhas de outrem.

De repente, diante de um novo outdoor, o eu lírico toma consciência de que “só a janela de vidro me sufoca”, a mulher, vítima de tantos dissabores ao longo da história da humanidade tenta libertar-se do medo e brada para quem quiser ouvir: “quando eu disser não, / é não”, e a muitas pessoas que sangram por contas das injustiças sociais descobrem que “a vida é uma bandeira vermelha/ balançando na minha cara”. Porém o mais incômodo é que, nas páginas desta Cinelândia repleta de trailers de filme tantas vezes já vistos e reprisados, diante das constatações de que opressores e oprimidos ocupam um mesmo espaço, mas que aqueles se refastelam sobre a miséria destes, o leitor caminha a passos largos ciente de que há mortos e feridos, mas mesmo assim “ninguém derramou uma lágrima”. E quando a dor do outro não mais nos incomoda, certamente já perdemos parte de nossa humanidade.

Diante desse cenário, que jamais dará audiência em uma Sessão da Tarde, o poeta não apenas lamenta para si ou se fecha em seu mundo particular, ele cumpre o seu papel social de denunciar, de deixar claro que os olhos da poesia não se fecham diante das atrocidades e que sempre haverá alguém para manchar -uma folha de papel com verdades que muitos teimam em não ver.

Consciente do fato de que “as manhãs não têm ofertas, nem promoção”, o poeta Paulo Rodrigues utiliza-se da poesia para colocar em tela histórias como as de Iriana, protagonista de um filme que se repete à exaustão, apenas com a mudança no nome das personagens.

 

Iriana mora na rua.

foi comida pelo pai;

pariu cinco filhos nas calçadas.

 

nunca aprendeu a sonhar,

mas dorme no papel

sob os carinhos do

filho.

 

Este é um livro de palavras e de imagens. De palavras que tantas vezes são silenciadas, mas que precisam ecoar para que os fatos aqui expostos deixem de fazer parte do cotidiano. É um livro de imagens cruas, com personagens que trazem na pele as marcas de uma realidade que não deveria existir.

 A cada poema, as palavras se movimentam e ganham a forma de um filme de dor, amor ou de terror. Trata-se de um livro que humaniza nossos olhos cansados de silêncios, afinal, “cada um protesta como pode”. E nosso poeta sempre protestou em forma de ações e de palavras.

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 14/10/2021

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Fonte:

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