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Agora Santa Inês - PEQUENO ENSAIO AMOROSO: UM BANQUETE PLATÔNICO

PEQUENO ENSAIO AMOROSO: UM BANQUETE PLATÔNICO

“bem antes de todos os deuses pensou em amor.”

(Parmênides)

Comecei a leitura do livro novo de poemas, da Luiza Cantanhêde e percebi algumas coisas que alegraram a minha manhã. A poeta consegue ampliar o simbolismo da palavra, arranca luz solar das imagens e faz conexão com o universo, ao se vestir de mulher madura, libertária e ao mesmo tempo angustiada, capaz de revelar um cotidiano (humano).

A geografia do livro nos leva para montes não muito claros, nem óbvios. O Ferreira Gullar já dizia muito sabiamente: “só é poesia aquilo que não se sabe”. É portanto, uma revelação de vida, ainda não colecionada.

A poética desta mulher segue agora explorando um tema ainda pouco exposto nos dois livros anteriores, que é o amor. Não o amor embriagado, dos românticos. Nem mesmo a secura consciente dos poetas marginais aparece no Pequeno Ensaio Amoroso, que deve ser editado em janeiro de 2019, pela Editora Transcendência, do premiadíssimo Nathan Sousa.

Chamou-me de imediato a atenção o poema BAGAGEM VAZIA:

recolher os fardos não é fácil.

não é fácil preencher ausências

se a vida já solicitou as bagagens.

(render-se ao novo caminho

ou à solidão do quarto escuro?)

há quem creia que um remendo

na alma é melhor que o amor

desenhado na penumbra.

A grande discussão no diálogo O Banquete é sobre Eros. Quando aprofundamos a leitura, percebemos a verdade cristalina daquela festividade, que é entender o amor. Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates reúnem-se para comer, tomar vinho e refletir demoradamente.

Sócrates escuta todos atentamente. É o último a falar, pela posição que ocupou, porque costumava chegar atrasado. Conclui que o amor (EROS) é preso ao desejo. É carente, sonha com aquilo que não tem. Ao possuir, busca outras realizações: “não está então admitindo que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?”.

A poeta Luiza Cantanhêde joga álcool na primeira definição do filósofo; apresentando um amor plenamente realizado que encerrou um capítulo: “não é fácil preencher ausências/se a vida já solicitou as bagagens”. Ela confirma e expande a falta como elemento essencial do amor.

Há uma dedicação minuciosa ao mito amoroso. Os versos apresentam um exame da bagagem/vida, que reúne o sentir filosófico, pois é capaz de entender a liberdade dos caminhos no pós-amor: “há quem creia que um remendo/ na alma é melhor que o amor/ desenhado na penumbra”.

Dialoga, em várias partes da obra, com Platão. Discute as manifestações do desejo em muitas frentes, num banquete solitário e epifânico. Como podemos constatar em ESCATOLOGIA:

ainda não aprendi

a desprezar meus fardos

mas continuo

esperando

o que em mim

está morto e enterrado.

 “O amor entendido dialeticamente não é mortal nem imortal, não é pobre nem rico. Está no meio. Consciente da carência incessante aspira ao belo”, disse Sócrates. Na poesia de Luiza Cantanhêde tem uma espera mais dolorosa, pois os fardos não podem ser jogados fora. Estão acima da beleza, da virtude, do bem. É um peso para a poeta, mas que não deve ser descartado.

Observa-se no poema supracitado que o eu lírico desenha o seu calvário, sem pedir ajuda ou piedade. Então, é preciso cultuar o que está morto e enterrado, como se ainda estivesse vivo e pulsante, carregado da beleza como o primeiro raio de luz perdido na memória.

Luiza aborda o tema amoroso através de uma linguagem carregada de símbolos e traços estilísticos próprio, apresentando uma profundidade que só os grandes alcançam. No último poema da primeira parte, há uma indagação que perpassa todos os lugares da obra. A poeta fala de forma metafórica sobre a ausência interminável: “ você não sabe/ o que se passa/aqui dentro/;/ o mistério atraindo/o infalível martírio”. De forma genial, tenta compreender o seu próprio mito amoroso e os nossos.   

Texto: PAULO RODRIGUES – Professor de Literatura, poeta, escritor autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017).

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post:

Data: 01/12/2018

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Palavras-chave: PEQUENO ENSAIO AMOROSO: UM BANQUETE PLATÔNICO

Fonte: PAULO RODRIGUES

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