/Caderno B
12/11/2011 12h16

Vicente Telles: O mago na arte de viver

Cantor e compositor Vicente Telles

Por Márcio Proença

Muitos irão estranhar porque entrevistei um artista desconhecido do grande público. Mas acontece que muito da história da música popular brasileira não é contado apenas pelos mais famosos. E dentro dessa esfera pública que é a arte, existem aqueles artistas ou não que guardam em suas memórias, em seus álbuns de fotografias, em seus acervos, depoimentos que são verdadeiros achados da nossa música. São aquelas histórias que não são contadas em livros ou salas de aula. E é para isso que serve uma entrevista como essa que você irá ler agora, caro leitor.

Conhecido por muitos músicos de renome do cenário da música brasileira – principalmente pelos que despontaram na década de setenta – e também por boa parte dos conterrâneos maranhenses como Zeca Baleiro, o cantor e compositor Vicente Telles, radicado há mais de trinta anos na cidade do Rio de Janeiro, vem ao longo de sua carreira, colhendo frutos de um trabalho feito com amor e carinho, mas nem sempre de altas marés. Sem papas na língua, dando o seu recado a quem quer que seja, sem se arrepender, não se intimida e abre o verbo.

Árduo defensor da música popular de cunho brega, afirma que a canção romântica está desprovida de inspiração pela veterana e nova leva de cantores e compositores por décadas. Até mesmo o Rei das Canções não escapa de uma crítica de Telles, que anda triste com o atual cenário da nossa música.

Sério, recluso e observador, lê jornais e passa boa parte de seu tempo disponível acessando diversas redes sociais e busca conhecer novos talentos, novos compositores e cantores, entretanto, mantendo contato com a sua arte que se renova sempre, mas sem ter o sonho de um sucesso passageiro ou descartável, midiático demais, pois para ele música é sentimento e não um produto supérfluo.

Nessa entrevista cedida a mim, na manhã do dia 1º de outubro de 2011, no bairro de Fátima, Vicente Telles me recebeu em sua casa para um bate-papo descontraído, mas que não deixa de ser bombástico, onde ele mesmo dispara contra diretores de gravadoras e colegas de profissão, sem deixar de lembrar dos que sempre o apoiaram nessa longa caminhada.

Como se deu a sua inclinação para música? Olha, eu já vim com essa coisa desde o ventre, pois creio que já nascemos com essa inclinação. Eu, desde criança, já dava muita atenção à música naturalmente.

Com Fágner e grupo de músicos

Quais eram os artistas que você sempre ouvia ainda criança? Eram muitos. Eu vinha ouvindo muita coisa de Miltinho, Vicente Celestino, Valdick Soriano, mas depois outros nomes da MPB, Jovem Guarda. Cresci ouvindo até mesmo a música de cabaré, pois onde eu fui criado, na cidade de Santa Inês do Maranhão, havia um serviço de alto-falante e lá sempre tocava de tudo que estava em voga na época.

No Maranhão você chegou a participar de algum grupo musical? Participei somente para um programa de calouros, mas não deu certo. Sempre me vi sendo um artista solo.

Quando e porque você decidiu vir para o Rio de Janeiro viver de arte? Decidi isso em 1975. Ouvia dizer que havia o bairro de Copacabana e depois o bairro de Jacarepaguá. Só ouvia falar desses bairros. Quando comecei a trabalhar com música, ainda por lá, um dia tomei a decisão e vim de vez. Vim porque o Rio sempre foi e é a vitrine da arte no Brasil. Até hoje é assim, mas muita coisa mudou. E estando no interior do Maranhão, nos anos setenta, era tudo muito diferente de hoje. Era mais difícil. O Brasil veio ficar mais moderno há uns vinte anos. Hoje ainda não mudou tanto para quem vem do interior como um lugar que ainda é Santa Inês, pois tem dificuldades. O artista ainda tem que estar presente nos grandes centros.

Você recebeu algum apoio quando chegou aqui na cidade maravilhosa? Sim. Recebi. Conheci alguns músicos e logo tive o contato e apoio do cantor e compositor Marcus Pitter. Conheci também no início da minha saga o Toninho, técnico gravação. Mas o primeiro a me levar para um estúdio de gravação foi o Maestro Peruzzi e conheci também muita gente na Odeon. E nesse estúdio gravaram artistas como Ivan Lins, Elba Ramalho, Clara Nunes, Alcione, João Nogueira, Evinha, Gonzaguinha, José Augusto, Fernando Mendes.

Depois de quanto tempo veio o seu primeiro disco? Veio em 1979, mas somente em 80 é que foi lançado pela CBS. O disco foi produzido pelo Fagner, com arranjos de Túlio Mourão e tinha até mesmo, dentre nomes de peso, o violonista Manassés.

Com o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro

Quantos discos você gravou? Em vinil, são cinco oficiais.

Você acha que as música dos compositores de hoje são pobres em essência romântica? Não restam dúvidas que sim. São muito pobres! Não há mais aquela preocupação em criar uma frase de impacto. Você mesmo sabe que o Roberto Carlos e Erasmo Carlos têm frases impactantes, que fazem as pessoas parar para pensar.

Como foi a sua relação com Raul Seixas? Vocês eram amigos, não eram? Sim. Fomos muito amigos, mas o que ele fazia na época não rolava para mim. Estávamos em ‘ondas’ diferentes. Mas eu conheci o Raul ali no Edifício São Borja, na Av. Rio Branco, no Centro do Rio. Todos os artistas passavam por ali, pois era onde ficavam os estúdios da Phillips e da Odeon. O Raul passava muitas vezes por ali. Como eu já estava trabalhando no estúdio da Odeon, ajudando aqui e ali, um dia eu o encontrei e puxei um papo com ele. Dali em diante muita água rolou. Lembro-me que nesse dia ele me ofereceu uma vitamina de banana com aveia e brindamos a nossa amizade ali mesmo. Mas nunca gravamos músicas um do outro. Era pura amizade.

Muitos pensam que ele (Raul Seixas) compunha apenas rock. Mas compôs muito brega, não foi? Foi mesmo. Dentre as de grande sucesso como brega está a “Se ainda existe amor” que ele fez com Sandra Syomara (Se ainda existe amor, olhe bem pra mim e me diz enfim que me quer. Se ainda existe amor, pegue minha mão e me diz então que sou seu). Essa música foi gravada pelo cantor Balthazar. E o primeiro disco do cantor Alípio Martins, que era cantor de carimbó no Pará, teve uma música do Raul chamada “Estela”. Mas a verdade é que a música que trouxe o baiano Raul para o Rio de Janeiro foi a música “Tudo que é bom dura pouco” gravada pelo Jerry Adriani, que fez muito sucesso. Lembro-me que o Jerry gravou e fez um sucesso tremendo com “Doce, doce amor”, também do Raul.

Você é conhecido por muitos artistas maranhenses que hoje moram no Rio de Janeiro e até mesmo em São Paulo, pois você na época que fazia parte do cast popular da CBS, viajou muito divulgando os discos que fazia por lá. Por ser uma pessoa ainda notória no meio, você vê o maranhense como um grupo de artistas unido? Falando a verdade, em letras garrafais, SÃO TODOS UNS EGOÍSTAS. Até hoje só vejo união na nata da MPB como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa (povo unido é baiano!). Há muita união no sertanejo. Veja você mesmo como é unido esse povo, o Zezé di Camargo e toda a trupe do sertanejo de motel. Agora o maranhense é cada um por si, Deus por todos. Mas há um cara que se difere de toda essa turma, ele se chama César Nascimento, com que fiz uma série de boas canções e xotes. O cara é formidável, ético e muito humano. A maioria dos maranhenses é distante, não se ajuda. Uma pena!

Vicente Telles com o ministro do esporte Aldo Rebelo

E de quem você não gosta? Geraldo Vandré. O hipócrita de marca maior. Vandré é um equívoco da música brasileira. Certa vez estávamos eu, César Nascimento e o Geraldo na Odeon e ele (Vandré) disse que a gente não conhecia nada de música. Que éramos uns idiotas. Aí perguntei a quem ele se referia e me respondeu na maior falta de educação que era a gente que vinha depois dele nessa estrada de música. Nos desentendemos. Mas antes mostrei a ele que eu conheço sua obra e pedi para ele calar a boca e parar de falar besteira. Eu vi que ele ficou impressionado e ainda me perguntou onde eu conhecia aquilo. No final não respondi nada e resolvi o que tinha que resolver por ali. O Vandré quando fez o Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando e Cantando), fez inconscientes. Ele não é aquilo que está ali. É um falso artista.

E dos grandes nomes, quem você admira? O Caetano Veloso. O cara é um artista antenado com o nosso tempo. Não se intimida em gravar um Fernando Mendes e de dizer que gosta de música brega. E isso Veloso já faz há tempos, desde o disco da Tropicália em que ele canta “Coração Materno” de Vicente Celestino. Depois regravou a música Sonhos e fez um tremendo sucesso com Sozinho, ambas do Peninha que é tido como um cantor e compositor brega. O Caetano sabe das coisas. Admiro também o Roberto Carlos, Hermeto Pascoal e Zeca Baleiro, meu conterrâneo.
Como você encara o atual cenário da música brasileira? Com muita tristeza. Nem mesmo o Roberto Carlos é o de antes. Está pior. Acabou em termos de inspiração. Estão todos na base do embrulha e manda.

A quem ou a quê, você culpa o fim das gravadoras? O Universo, cara. Tudo tem um fim e isso é natural. Essa turma que está aí, agora paga pelo que fez com a gente. Conheci e conheço muita gente desse meio que humilhava os artistas. Eu mesmo fui um desses humilhados por diretores e executivos de gravadora. Uma coisa absurda! O Cláudio Condé é um deles. Um falso! Para ele me receber, tive que ligar para dona Laura – Lady Laura, mãe do Roberto Carlos – para que ela pedisse a ele para que pudesse me receber, o que acabou acontecendo.

Com Mestre Azulão ao centro e Marcus Lucenna

Você recebe os seus direitos autorais corretamente? Não. Ninguém recebe. Nem mesmo o Roberto Carlos.
Alguma gravadora te roubou? Sim. Todas elas. A CBS e a Polygram me roubaram muito. A Polygram tinha o selo Lança. Lá eu gravei o disco “E por isso estou aqui”. Eu vou te contar apenas essa história para que vocês vejam como funcionava essa ludibriação. Viajei boa parte do país divulgando esse álbum. Naquela época, não se entregava disco em consignação. Uma vez eu cheguei em Teresina, Piauí, e encontrei uma pilha enorme desse meu disco. Eram bem mais de cem. Aí pensei que se tem ali, tem em outro lugar. E era verdade. Todo estado que eu passava, encontrava discos e mais discos meus. Chegando ao Rio, fui à gravadora e à associação para ver como ficava. E diziam que não haviam vendido aquela quantidade. Márcio, nunca ganhei um puto por venda de disco, acredita? Será que eu nunca vendi um disco?

O que é o “brega de raiz”? É o brega que conta a relação do homem e da mulher com verdade, sem apelação. Por exemplo, o cantor Bartô Galeno, quando ele canta “Só lembrança eu sinto e nada mais”; Ou Waldick Soriano cantando “Hoje que a noite está calma / E que minh’alma esperava por ti / Apareceste afinal / Torturando este ser que te adora”, isso é o brega autêntico, cantavam isso com coração, com sentimento.

Quais os artistas que gravaram músicas de sua autoria? Gilson (o cantor de “Casinha branca”), César Nascimento, Lairton e seus Teclados, Roberta de Recife com participação do grupo Cidade Negra, Geraldo Cardoso...

Com o filho e guitarrista Caio César

O escritor e historiador Paulo César de Araújo, autor dos livros “Eu não sou cachorro, não” e “Roberto Carlos em detalhes”, pediu a você um depoimento que hoje está no livro que é a biografia do rei das canções, que venceu na justiça e teve o livro recolhido em todo o território nacional. Você vê um erro do biografado agir dessa forma? Rapaz, apesar de ser fã do Roberto Carlos, reprovei totalmente esse gesto. A meu ver, biografia autorizada não tem graça. Você vai fazer uma biografia da minha vida e só vai dizer o que eu quero que seja dito? Foi um vacilo imperdoável do Roberto perante a literatura brasileira.

E sobre o livro “Eu não sou cachorro, não”, você pode falar alguma coisa? É uma obra que deveria estar nas escolas. A ditadura não proibiu somente as obras de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque. As intervenções da censura na música brega foram inclusive motivo de pesquisa do historiador Paulo Cesar de Araújo, que defende a tese de que ela não era tão alienada quanto se pensava. Verdade ou não, o fato é que, os cantores da primeira geração da música brega, como Waldick Soriano “Paixão de um homem” e “Se eu morresse amanhã”, Lindomar Castilho “Eu vou rifar meu coração” e “Você é doida demais”, Odair José “Deixa essa vergonha de lado”, “Uma vida só” – Pare de tomar a pílula – , Amado Batista “O lixeiro e a empregada” e “O acidente”, Almir Rogério “Fuscão preto”, entre outros, fizeram sucesso falando em suas canções sobre a vida de gente de classes “menos favorecidas”, de seus problemas amorosos e desilusões. Outras composições dos artistas bregas também foram censuradas por diferentes razões. “Tortura de amor”, de Waldick Soriano, lançada em 1964, foi vetada por causa da palavra tortura, embora tenha sido composta em 1962, período em que o golpe militar sequer tinha acontecido. Já a canção “Treze anos”, de Luiz Ayrão, foi proibida ao ser lançada no mesmo ano em que o golpe militar comemorava também seu décimo terceiro aniversário. Trocado o título por “O divórcio”, foi liberada, embora o conteúdo tenha continuado absolutamente o mesmo.

Saindo agora do assunto música, eu sei que você é presidente da ABRACNE (Associação Brasileira de Arte e Cultura do Nordeste). Fale um pouco sobre ela? Olha, essa associação foi criada por mim, Marabá e Marcus Lucenna. Até hoje nós vemos grandes artistas jogados pelas

Vicente Telles com o ex-presidente Lula

calçadas mostrando sua arte. Um dia conversei com o Marabá sobre o assunto de levarmos essa turma para a feira * através de um movimento que juntasse esses artistas todos e que não os deixasse dispersos de uma organização qualquer. Inclusive na criação do nome que eu mesmo criei, também pedi ajuda ao cantor César Nascimento para o nome. Aí organizamos a Abracne que é para fazermos justamente o que estamos dando início agora, que é fazer oficinas de xilogravura, violão e cordel. Para você ter uma idéia, quem está ministrando o curso de cordel é o Mestre Azulão, muito admirado por muitos repentistas e cordelistas, inclusive, pelo cantor Zé Ramalho que o reverencia em muitas canções. Ontem até fomos fazer um trabalho na Escola Municipal Estados Unidos, no bairro do Catumbi, onde tocamos e cantamos juntos, surgiu a idéia de gravarmos um trabalho em disco. Ele tem 81 anos e vamos fazer um trabalho bacana.

*Nota do entrevistador: a feira à qual o entrevistado se refere é o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, popularmente conhecida no RJ como “Feira de São Crsitóvão” ou ainda “Feira dos Paraíbas”, localizada no bairro de São Cristóvão.

Você tem quantos filhos? Tenho três. Uma não gosta de mim, mas os outros dois gostam.

Tem algum deles que tem inclinação para música? Tem. O Caio César. Ele toca guitarra. Márcio, eu costumo dizer que ele é tudo que a vida me negara. Tem 1.93 de altura, eu sou baixinho; Ele é inteligente pra cacete, eu sou burro pra cacete; Ele é bonito pra caramba ... Você está entendendo? O Caio é o avesso de mim.

Quantos anos tem o Caio? Vai fazer 18 anos agora, se Deus quiser.

Com um amigo desconhecido do grande público

Ele é carioca? Não. Ele nasceu em Campina Grande, Paraíba, mas foi criado até aos dez anos aqui no Rio de Janeiro. E hoje mora em Campina Grande, tem uma banda de rock, curte muito Jimmi Hendrix, Beatles, essa turma toda. Gosta do brega também, mas não fui eu quem meteu isso na cabeça dele. Rapaz, o brega tem coisas preciosíssimas que as pessoas discriminam. A discriminação é como se você usasse um óculos que impedisse de ver os detalhes. Existe uma música chamada “A beleza da rosa” cantada pelo cantor José Ribeiro que diz: “Tens a beleza da rosa/Uma das flores mais formosas/Tu és a flor do meu lindo jardim/ E eu a quero só pra mim”. Qual a mulher que não gosta de ouvir uma poesia como essa? A mulher que lê Vinícius de Moraes, se você der uma frase dessa ela, ela se desmancha, mas não, quem está cantando é o José Ribeiro, um cantor cafona, entendeu? Já não tem valor.

Quem é o artista Vicente Telles nos dias de hoje? Eu não sou apenas um rapaz latino americano. Sou um rapaz latino americano que quer que as pessoas saibam que eu tenho esses sentimentos, através das coisas que falo, através das minhas ações, através das canções que escrevo, que canto. Eu sou esse cara.

Gostaria que você deixasse um recado aos internautas do Blog Sombaratinho. Márcio, todos os espaços como o blog sombaratinho, que tentam unir forças, arte de qualidade, creio que deveriam ser vistos de uma forma muito carinhosa. Crítica também é importante, mas que seja uma crítica que faça esse espaço crescer e tomar forma para ter poder e voz até para reivindicar direitos dessa pessoa que está criticando. Em relação à música, temos que nos unir também para o bem da própria música. O egoísmo, eu costumo dizer, Márcio, que todos nós somos uma luz ofuscada pela ignorância dos homens pequenos. Se extrairmos toda a vaidade e egoísmo que temos, tudo fica melhor. O cara não quer que o outro consiga para que admirem ele. O lance de “Eu sou o cara”, não está com nada. O legal é “Nós somos os caras”. Todo mundo só fala “Eu”. E a maioria diz assim “Vamos conseguir”, quando consegue diz “Eu consegui”. “Nós” eu nem sei se ainda existe no dicionário.

Quais os seus canais para contato? (21) 8357-7294 e meu e-mail: vt.telles@gmail.com

Obrigado, Vicente Telles. Obrigado a você, Márcio Proença.

Personagem O Mago das Canções - Criado por Vicente Telles Vicente Telles com uma amiga e César Nascimento