/Editorial
03/12/2011 12h09

A CANDIDATURA DO LULA

Carlos Chagas
A entrevista do ex-presidente Lula  à revista New Yorker foi concedida antes de descoberto o câncer que ele tem na garganta. É fácil concluir que seu estado de espírito era um, depois ficou outro. Mesmo assim, quando indagado se disputaria outra vez a presidência da República, ele ficou em cima do muro, claro que com óbvia tendência de pular para o lado da candidatura: “não tenho coragem de dizer que vou concorrer, como não tenho coragem de dizer que não vou concorrer.”

Até o diagnóstico incômodo o Lula  colocava nas mãos de Dilma Rousseff a decisão, quer dizer, deixava a presidente de saia justa, sabendo que quando chegasse a hora  ela devolveria o raciocínio:  “se você quiser voltar em 2014 eu não disputarei a   reeleição”. Seria  a resposta natural  e leal da criatura que chegou ao palácio do Planalto exclusivamente por ato de vontade do criador.

Agora,  tudo depende do tratamento a que o primeiro-companheiro se vê submetido, bem como de sua recuperação.  Talvez não repita mais o conceito exposto  aos jornalistas americanos, de considerar-se um ser eminentemente político. Pode estar concluindo que antes de político,  é um ser humano. Toda doença faz o doente repensar sua vida, mesmo depois de recuperado.

O Lula já não será tão candidato quanto era. A disposição de voltar ao poder talvez não o sensibilize como antes. Seus  valores serão outros.

Como a vida é sempre mais estranha e fascinante do que a ficção, vale ressaltar que a presidente Dilma passou pela mesma situação do antecessor. O câncer também a acometeu, não constituindo obstáculo para sua eleição. Supõe-se que tenha, da mesma forma, meditado sobre  a própria  existência.  Mais quatro anos seria sacrifício necessário à sua biografia?

Em suma,  acima e além de ambições, de arroubos e de estoicismo, abre-se uma pausa na prospecção do futuro.