/Língua Afiada
01/07/2011 22h45

Ignorância x Sabedoria (ou Rudeza x Esperteza?)

IGNORÂNCIA - Falta de conhecimento, de sabedoria e de instrução sobre determinado tema, fato, ato ou até mesmo crença em falsidades. O ignorante busca estabelecer idéias falsas sobre si mesmo e/ou sobre o mundo que o cerca de forma errônea, mantendo-se equivocado.
SABEDORIA - Dom que nos permite discernir qual o melhor caminho a seguir, a melhor atitude a adotar nos diferentes contextos que a vida nos apresenta. O sábio busca se antecipar às conseqüências, protegendo-se de eventuais riscos, responsabilidades, resultados negativos.
ESPERTEZA - Qualidade de esperto. Virtude de clara e fácil vivacidade ou agudeza de espírito. Sinônimo de sutileza, sagacidade, finura, artifício, astúcia, manha, lábia, solércia. O esperto nem sempre é detentor de uma inteligência sistemática, ou seja, nem sempre se confunde com o sábio. Pelo “diagnóstico” do doutor povo, seria aquele indivíduo que se passa por ignorante, para se sair como esperto.
RUDEZA - Qualidade do que é rude. Rudez, aspereza, crueza, pureza, incivilidade, estupidez, burrice. O rude é uma pessoa de pouca inteligência, incompleta, fraca, tola, burra.
Pois bem. Após esse breve “passeio” pela Semântica de nossa língua pátria (com um “pit stop” degustativo na Sinonímia), uma constatação no mínimo engraçada: entre os suspeitos por toda espécie de crimes até os políticos flagrados em supostas falcatruas, reina uma total e absoluta “ignorância” sobre tudo que acontece ao seu redor.
É amigo, vivemos em uma terra em que, à semelhança dos três célebres macaquinhos, ninguém viu, ninguém falou, ninguém ouviu. Ou seja, reza a melhor tradição tupiniquim que, por aqui, todos são, por unanimidade, fartamente IGNORANTES (pra não dizer o contrário, altamente ESPERTOS)!
Que sejamos o país dos ignorantes não é nenhuma novidade. Pois é fato que nossos indicadores de escolaridade básica são ínfimos, muito mais ainda os de escolaridade superior (sob este aspecto, perdemos feio até para nossos amigos latino-americanos e alguns africanos).
Ruim é constatar que a falta de conhecimento não se faz privilégio das camadas mais desfavorecidas da sociedade (que, naturalmente, não tem condições de sustentar sua prole em escolas particulares). Ela está semeada entre todas as classes sem grande diferença e prolifera com mais vigor e até com certo orgulho entre os que conseguem amealhar ganhos materiais significativos. Vai ver até que por conta da tal “IGNORÂNCIA” acaba ficando mais fácil enriquecer (é a tal da “ESPERTEZA”!).
O “se declarar ignorante” é cômodo e livra a cara de maiores explicações. Exemplo? Se ignoro, não tenho porque dar satisfações. Não tenho porque me esforçar para encontrar justificativas para meus atos. Simplesmente os ignoro. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe! Pronto! Resolvida a situação e vamos em frente! Deixa a turma “roer”!
Na delegacia ou no tribunal (e diante das provas mais cabais) o camarada se declara inocente. O advogado, na maior cara de pau, afirma contundente que seu cliente nada tem a ver com o fato. “Trata-se de um equívoco que será logo esclarecido”. E tome um habeas corpus!
Para a imprensa que tudo vasculha e tudo cutuca, o político se faz de surdo e mudo: nada declara, nada tem a declarar e quando tem é sempre para alegar total “IGNORÂNCIA” sobre a questão.  Mesmo que o ambiente esteja fedendo à sua frente (ou ali pertinho, ao lado), não importa. Manda a prudência do político bem adestrado que o melhor é fingir que não é com ele. Nós quem, cara pálida?
Trata-se, sem dúvida, de um comportamento estranho. Pedro Demo afirma em um de seus livros que “participar exige algumas premissas, entre elas o ‘estar informado’”. Ou seja, a participação exige tomar conhecimento do assunto. Portanto, os que “IGNORAM” não têm condições de participar.
Sabemos também que poder é informação (valendo, nesta afirmativa trocar, a ordem dos termos). Quem sabe detém o poder e para seu exercício é preciso se manter sempre à frente dos acontecimentos, antevendo a conjuntura para ajustá-la a seus propósitos, o que evidentemente advém de estar de posse da informação. Ou seja, “estar” e “participar” do poder exige informação em primeira mão!
Portanto, em se acreditando em tal proposição seria o caso de se perguntar: uma vez que se tornou moda entre nossos políticos afirmar, categoricamente, que não têm conhecimento de fatos que ocorrem à sua volta e revelia, quem, então, no momento, detém o poder neste país?
Ora, ora... Seremos nós (pobres mortais), IGNORANTES? RUDES?