/Língua Afiada
31/03/2012 10h45
Os engodos nossos de cada dia

De tempos em tempos, a sociedade brasileira é tomada por campanhas que, passados alguns anos, tornam-se um verdadeiro vexame, a ponto de ninguém querer admitir que um dia foi adepto dela.
A primeira que se pode rememorar foi a eleição de Fernando Collor. O “Caçador de Marajás” foi guindado à condição de herói nacional numa velocidade estupenda e na mesma velocidade que subiu, foi abatido do poder.
A campanha de mídia que esteve por trás das duas etapas - ascensão e queda - foi algo impressionante. Hoje, diante do que nos sido mostrado diariamente pela imprensa, os escândalos que derrubaram Collor não passariam de um artigo de jornal de fim de semana.
Outra campanha que recentemente esteve em voga foi a do famigerado “kit de primeiros socorros”. Da noite para o dia todos os motoristas foram obrigados a comprar um estojo com alguns metros de gaze, esparadrapos e tesoura de ponta redonda e, com aquilo, sem máscara e luvas de proteção, qualquer motorista poderia se meter a socorrista.
Não sei se alguém se aventurou a fazer algo ou teve o infortúnio de ser atacado por um maluco com uma tesoura de ponta redondas após sofrer algum tipo de acidente. O certo é que, no final, depois de algumas empresas fabricantes do kit terem lucrado com a lei, os motoristas tiveram que jogar o estojo numa gaveta, pois a obrigatoriedade foi revogada.
Também não se pode esquecer da intensa campanha de desarmamento da população, que, num primeiro momento, teve - e tem - boa intenção de retirar de circulação armas que podem cair nas mãos dos bandidos ou serem mal usadas, mas que na prática não funciona desta forma, pois o que adianta retirar armas leves de gente de bem, se aquelas que estão em poder de criminosos continuam lá? Se os caminhos de contrabando e mercado negro continuam ativos e fáceis de serem praticados?
Nas imagens de televisão, que mostravam as armas apreendidas, não lembro de ter visto nenhum FAL ou AK 47 (nomes de fuzis) sobre as mesas de recepção nos postos de trocas. Além disso, os homicídios não tiveram os recuos prometidos e obviamente desejados. Em 2011, por exemplo, esses crimes, no Brasil, chegaram bem perto dos 50 mil. Na análise fria da estatística, é mais perigoso viver no Brasil que no Iraque!
Para completar o rol de campanhas que vendem uma promessa e entregam outro resultado, temos “em voga” a campanha de substituição das sacolas plásticas descartáveis de supermercados por sacolas reutilizáveis.
Tudo bem que quase a totalidade das sacolas descartáveis não virassem sacos de lixo nas residências. Com a retirada das sacolas plásticas, os consumidores passarão a comprar sacos de lixo e isso representará economia e lucro para os supermercadistas; com praticamente nenhuma redução de descarte de sacos plásticos nos lixões das grandes cidades. A economia será pela não entrega gratuita das sacolas e lucro pela venda dos sacos de lixo.
É vero! A afirmação acima não é feita baseada na mera especulação não. Números da indústria do plástico já indicam queda na produção de sacolas descartáveis e aumento da produção dos sacos de lixo, de tal sorte que fabricantes de sacolas já pensam em migrar parte da produção para sacos de lixo.
Outro ponto a considerar é que as sacolas representam menos de 8% do plástico utilizado para embalagens, porém, o restante do plástico não sofre campanha para substituição ou redução de uso. O PET, das garrafas plásticas, por exemplo, é um componente de três camadas de difícil reciclagem e ampla poluição. O retorno do vidro seria a solução, mas isso nem é cogitado e muito menos alvo de campanhas.
As embalagens “TetraPak” também são uma verdadeira praga para o lixo. As famosas caixinhas são compostas por camadas de plástico, papelão e alumínio, além das tintas utilizadas para impressão. Difícil acreditar que sucos e água de coco de 200 ml podem ser vendidos em tais embalagens sem restrição alguma, porém contra elas nada é dito. É uma pena que se vendam soluções mágicas com eficácia duvidosa a todo momento e nós as compremos de forma tão cordata! É uma pena!