/Língua Afiada
10/09/2011 13h24

Tô nem aí


 “Brava gente brasileira, longe vá temor servil...
... Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”.
Que os versos aí de cima, de Evaristo da Veiga, no Hino da Independência, possam nos estimular a não viver eternamente submissos à bandidagem e elegendo gente mais decente e melhor preparada para representar o nosso povo.
Este cronistinha de pouca tinta cultiva uma desconfiança pertinaz de que o exército dos que “não estão nem aí” para a ética política é o maior contingente humano que existe no mundo: os famosos e lastimáveis analfabetos políticos. O inocente útil (que nunca é tão inocente assim). Os que sempre justificam suas covardias. Os sem amor à sua gente, à sua família. Os que desdenham da verdade e da decência.
De uns tempos para cá, por exemplo, milhões de pessoas resolveram sacrificar os valores de comportamento (herdados de tempos imemoriais) para sagrar e consagrar o dinheiro como bem absoluto e que, por si só, se justificaria. Ou seja, quem tem muito dinheiro não precisa de ética (aliás, compra e vende esta maltratada senhora pela manipulação da mídia, no mercado persa das adulações pagas).
E a patifaria desponta como o novo meio de vida já quase consagrado pelo uso. Basta reparar na cara lisa de certos políticos de práticas velhacas, para se perceber que eles querem mesmo, já completamente avacalhados, é jogar m... no ventilador.
Resumindo: quase todos esnobam e riem da memória do povo, cuspindo no julgamento popular, como a dizer: "opinião pública? Ah, eu compro”!
E na verdade, os mais astutos sabem mesmo comprar votos... E políticos também! E para aumentar o seu poderio, distribuem dinheiro e favores aos seus “pares”, justificando suas espertezas proclamando: "É dando que se recebe."
E o povo? Não está nem aí.
Embora a inflação volte a amedrontar, ela ainda não mostrou a sua cara feia (ou melhor, os seus horrorosos dígitos). Portanto, não há que se falar em cobrar juros ou taxas que somente seriam razoáveis em tempos de desvalorização do dinheiro. Mas está acontecendo o contrário: quem compra um imóvel hoje, faz negócio com construtoras que viraram bancos (pagando-lhes o dobro do valor do imóvel). E note-se que o construtor vende para construir e jamais constrói para vender. No fim da obra, o seu construtor, sem colocar um real do próprio bolso, fica com metade do prédio como lucro.
E o governo e o povo, não estão nem aí!
Este desinteresse pelo que nos cerca e oprime é, quem sabe, uma característica conformista de caráter religioso (a vontade de Deus) que as igrejas, sobretudo a católica, imprimiram nos povos em que predominaram. Ou, então, o famoso “maktub” (o estava escrito), que paralisa as mais legítimas reações humanas.
E por esta letargia cívica, os espertalhões sentem-se à vontade para meter a mão, viver como milionários e definir o homem comum (que cumpre seus deveres) como aquele perfeito idiota, que aparenta (por seu comportamento passivo) uma espécie de ausência de caráter.
Quase todos fazem do medo uma barreira intransponível. Medo do bandido, da polícia, do governo, do político corrupto e poderoso. E nada melhor para dominar um povo do que alimentar seus receios com ameaças veladas e abertas (pontilhadas aqui e ali por perseguições políticas ou vingança pessoal).
E o povo, não está nem aí. Desde que haja pão e circo, uma novela, um “reality show”, uma praia, uma cerveja gelada e a vaselina da marca “relaxa e goza”...
Aquele partido de operários que proclamava “ter a esperança vencido o medo” transformou-se numa velha garota de programa (cobiçada por muitos e explorada por quase todos) alimentada com dinheiro de empreiteiras, mensalões e por outras peraltices menores. Sua história tem virado piada nacional (embora ainda bem longe de se confundir com a “geni” de Chico Buarque).
O povo reclama, critica, debocha... Mas não está nem aí!
O “Tudo pelo poder e com o poder” é solenemente praticado pelos maus políticos. Maracutaias diárias, negociatas eternas (repetidas na cara da Polícia, do Ministério Público e da Justiça, cujos inquéritos, denúncias e processos silenciam invariavelmente, embora prometidos categoricamente).
E o governo não está nem aí!
Nas conversas, o sentimento dominante é que em 2012 os profissionais da política continuarão a comprar os votos do “povo que não está nem aí” e, em troca de meia dúzia de cerveja, uma dentadura ou um par de sandálias baratas... terão mais quatro anos para nos “representar” vergonhosamente (“agindo” impunemente).
E este povo, gloriosamente enganado, extorquido, vilipendiado, desvalorizado em suas vidas e em suas famílias, marcha em passo batido, obediente, servil, como animais correm a um grito do peão...
... E caminha, cabeça baixa, no “pasto” dos ricos e poderosos (sempre dentro da “cerca”), para não morrerem e continuar a viver suas vidas de subserviência e servidão.
Porque o povo, até agora, não está nem aí!
Independência, mesmo que tardia...