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25/05/2011 10h53

EDITORIAL POLÍTICO

Titanic Brasília

Se alguém pensa que este artigo versará sobre a maior tragédia da história do Lago Paranoá, que está comovendo o Brasil e colocando em xeque as autoridades náuticas candangas, engana-se. O Titanic que me refiro é a estrutura de alto escalão formada pela presidenta Dilma Rousseff em seu início de gestão. O céu de Brasília já está fechado e o chão parece cada dia mais movediço. Assim como o ex-presidente Lula em seus primeiros anos, a administração Dilma parece estar engessada pela costura política necessária à sua eleição, além, é claro, da verdadeira herança maldita deixada por seu antecessor e padrinho. E quando isso acontece, nada melhor que uma grande crise institucional para desatar alguns nós.
O primeiro grande sinal de que Dilma Rousseff não viveria dias fáceis veio logo nos meses iniciais, com a economia dando sinais de turbulência e uma inflação em franca e perigosa ascensão. Por absurdo que possa parecer, é possível, inclusive, que essa inflação seja proposital, artificialmente provocada para colocar alguns trens nos trilhos e reorganizar o tabuleiro econômico após o irresponsável e desregrado último ano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva. De toda forma, com a alta desenfreada de preços não se brinca e se há um trauma que o povo brasileiro não quer reviver sob nenhuma hipótese, seu nome é inflação. E a economia tornou-se o iceberg diante do “Palácio-Navio do Planalto”. Nesse sentido, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um péssimo timoneiro e isso já está respingando na imagem da presidenta.
Por outro lado, o malabarismo das articulações políticas atingiu em cheio a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Desde que assumiu o cargo, a irmã sortuda de Chico Buarque não teve paz. De questionamentos duríssimos sobre sua postura diante dos direitos autorais e da internet até suspeitas de irregularidades em diárias – sai fora, Benedita, que esse corpo não te pertence! – a ministra está patinando no óleo que a politicagem vem colocando em seu caminho. E se há um lado bom nisso, podemos dizer que nunca na história desse país a Cultura esteve tão em pauta nos assuntos governamentais. No carrossel dessa crise, vários ministros foram supostamente flagrados recebendo diárias indevidas de viagem, o que é uma praxe desprezível desde os tempos de Fernando Henrique Cardoso.A bola da vez é o ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci. Após uma denúncia da imprensa de que seu patrimônio pessoal ascendeu de forma incompatível aos seus supostos rendimentos, o ministro já é o protagonista da maior crise do governo Dilma, o buraco irremediavelmente aberto no casco do Titanic. O PT tem grandes nomes em seu quadro. Mas não é mistério para ninguém que o Partido dos Trabalhadores adora o “socialismo de cúpula”, o ar de poder que um gabinete confere, a incansável predestinação de seus politiqueiros para levar as confusões mais grotescas à antessala da Presidência da República. Foi assim com Lula e o famigerado mensalão. Repete-se a baderna com Dilma e Palocci nesse escândalo que evidencia o tráfico de influências e informações utilizado pelas consultorias especializadas, um duto fácil para corrupção e que assola o Brasil há mais de uma década. Tudo isso ainda fez ecoar o pertinente questionamento do caseiro Francenildo Costa, que no passado fora exposto em suas contas mais íntimas por dedurar Palocci num “sexygate” ministerial, e agora pondera: “Por que ele não explicou de onde veio o dinheiro? Na minha época eu tive que explicar”. Foi constrangedor, pra dizer o mínimo.
Por fim, há pelo menos três décadas os Poderes Executivo e Legislativo vem assumindo posturas apequenadas e tacanhas, concedendo ao Poder Judiciário o papel de grande executor e legislador do país. Boa parte dessa culpa está em nosso sistema eleitoral anacrônico e corruptível e na dinâmica da composição desses poderes, que favorece a formação de grupos politicamente incorretos e hermeticamente fechados em seu atraso e pouca eficiência. Por mais que existam monumentais críticas aos nossos nobres togados, é a Suprema Corte brasileira o lugar que melhor compreende a evolução da sociedade e suas reais e imediatas demandas. E ainda bem que é assim, porque se estivéssemos na dependência exclusiva do Governo Federal e do Congresso Nacional, o Brasil ainda estaria na Idade da Pedra Lascada. Se bem que, num clássico regionalista, continuamos “lascados”! Ou melhor, seguindo a nova ordem dos livros erráticos do Ministério da Educação, “as pessoa tudo continua lascados”!E a grande questão é: a quem interessa o naufrágio do governo Dilma Rousseff? À oposição dorminhoca não parece ser, já que, apesar da conveniência dos sucessivos problemas, parecem estar sempre out de todo processo, ainda chorosos e sem rumo pela derrota da arrogante candidatura de José Serra. O grande vilão – se assim podemos chamar – é o “partidão”, o PMDB velho de guerra. Isso mesmo: “fogo-amigo”. Interessados em destronar a presidenta já em 2014 e fazer do governador do Rio de Janeiro o “Presidente Olímpico”. Ouso aqui profetizar: Sérgio Cabral será o próximo Presidente do Brasil. Muito provavelmente a partir de 2015, após o naufrágio do Titanic petista em Brasília.


HELDER CALDEIRA - Escritor, Articulista Político, Palestrante e Conferencista
 

POR HELDER CALDEIRA