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Eu e minha trupe nos encontrávamos no escritório (é como chamo respeitosamente a esquina de nossa infância) relembrando alguns fatos do passado de nossas vidas, muitas peraltices foram realizadas por todos nós. Um dos meus amigos de antanho começou a citar as músicas e os cantores mais ouvidos daquela época, até que o ‘Boca de Caçapa’ gritou: - não podemos esquecer do saudoso Raimundo Soldado. Todos nós fizemos um sinal positivo com a cabeça, buscamos no fundo das lembranças a impressão que tínhamos desse grande músico maranhense.
04/02/2012 14h16
Raimundo Soldado, Histórias e Cultura
Eu e minha trupe nos encontrávamos no escritório (é como chamo respeitosamente a esquina de nossa infância) relembrando alguns fatos do passado de nossas vidas, muitas peraltices foram realizadas por todos nós. Um dos meus amigos de antanho começou a citar as músicas e os cantores mais ouvidos daquela época, até que o ‘Boca de Caçapa’ gritou: - não podemos esquecer do saudoso Raimundo Soldado. Todos nós fizemos um sinal positivo com a cabeça, buscamos no fundo das lembranças a impressão que tínhamos desse grande músico maranhense.
Ele foi um dos donos da Boate Sonho Azul, no Alto do Tetéu, ali bem perto de nós. Era um tempo de grande violência na região, ao anoitecer já nos recolhíamos, mas pela manhã sabíamos de todas as ocorrências noturnas, e sempre a figura caricatural do Raimundo Soldado se destacava no desenrolar dos contos. Certa vez, ele conquistou a moça mais bonita da festa dizendo que fora promovido a Coronel, estava portanto, montado na grana. Noutro episódio ganhou quase um quilo de ouro de um garimpeiro para fazer um show em Maracaçumé, antes de chegar em casa estava devendo o dobro da riqueza conquistada.
As histórias apareceram em grande volume, até o ‘Espirro de Gato’ declamar a letra Minha Santa Inês: “Minha Santa Inês/ Minha terra querida/ Onde eu vivi tanto/ Por toda a minha vida/ Eu tenho pena de deixar o meu torrão/ Mas comigo existia tanta perseguição/ Tenho saudade dos bancos lá da praça/ Onde eu namorei tanto/ e beijei a Kiki/ Toda noite eu ia/ Na praça da matriz/ Me sentava nos bancos/ E amava feliz/ Eu tenho pena de deixar o meu torrão/ Mas comigo existia tanta perseguição.” Ficamos impressionados com a força telúrica de tão belos versos, com o lirismo puro na voz desse grande artista ‘brasileiro’, assim como com a expressão poética do ‘Espirro de Gato’.
Por fim, o encontro foi encerrado. Eu subi a Rua da Cajazeira pensando na grandeza do Raimundo Soldado, na falta de memória entre nós, no desperdício de tanta cultura imaterial que estamos permitindo, na fraqueza de políticas públicas capazes de impulsionar a cultura do Vale do Pindaré. Devemos mesmo repensar nossa Santa Inês, buscando formas de valorizar os nossos artistas, produtores culturais, pintores, escritores e poetas. Ainda é tempo de promover a grande transformação, usando apenas duas armas: educação e cultura.
Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)