/Refletindo Através das Letras
16/04/2011 10h25

-- Reflexão Linguística --

Por Paulo Rodrigues

Fui convidado a fazer uma visita surpreendente. Animadora mesmo. Chamaram-me na quarta-feira para irmanar, com meus pares, um projeto numa escola da rede municipal. Lá encontrei bons exemplos de trabalhos para a formação do leitor autônomo, boas fórmulas de encantar os discípulos com a literatura. Ao me misturar com tantas idéias salvadoras, fiquei renovado para o magistério, e lembrei de um aforismo do Manoel de Barros, que sintetiza os meus sentimentos: “a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balança, nem com barômetros. A importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Terminou a programação. Iniciei um passeio pelos corredores da escola, ainda encantado. Na última sala estava um professor extremamente competente, compenetrado na sua aula de gramatiquês, brincando de demonstrar o quanto ele conhecia das regras, da metalinguagem. Parecia inclusive com Napoleão Mendes de Almeida, o maior dos gramáticos tradicionais do Brasil. O tema da aula era substantivo. Inesperadamente o dono das regras, ‘de nossa língua materna’, pergunta:

- Turma, gostaria de saber dos senhores e das senhoritas qual é o conceito de substantivo abstrato? Ou que pelo menos vocês me dessem um exemplo de substantivo abstrato, é possível?

- O substantivo abstrato refere-se a coisas sem vida, cuja existência está vinculada a alguém, ou alguma coisa. Poderia dizer que tristeza é um substantivo abstrato, professor. Disse o Pedrinho, com atrevimento.

Antes de o professor concordar com o `decorebinha´. O Ronilson roubou o ato de fala, e disse:

- Não concordo com este conceito abstrato. Tristeza é algo concreto. Por exemplo, está doendo aqui dentro do meu peito agora, muito forte, porque minha ‘galinha gogó de solo’ morreu na noite passada. Observem. Se está doendo aqui, não pode ser abstrato. Posso pegar. Posso mostrar para vocês o tamanho da minha tristeza.

O senhor dono da regras da gramática ficou sem palavras, sentou na cadeira e abriu seu manual. Infelizmente ali não havia explicação para aquele questionamento inoportuno e ao mesmo tempo poético. Eu saí sorrindo da ingenuidade do velho mestre, mas muito animado com o poder de reflexão lingüística daquele jovem.

Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)