28/04/2012 12h11
Dico Moreno: Um Saxofone Lírico
Santa Inês é sem dúvida uma cidade com muitas histórias para serem contadas. Temos uma confraria volumosa aqui, que produz arte com extrema qualidade. Certa vez, ‘João Marcelo’ comentou em um dos seus textos: “Este lugar tem alguma coisa de maravilhoso, são muitos os intelectuais, há poesia nos trilhos da imaginação e bons músicos para encher os nossos corações”.
A música reanima a alma sim, meu camarada, por isso não consegui ficar triste no velório de Raimundo Japhá Moreno, na última terça-feira. Zé do Sax e sua trupe tocavam valsas e boleros do século passado para acalmar a todos nós. Enquanto alguns lembravam as peripécias do musicista. O Mano Goela, no meio da conversa, disse: – Agora vou contar a minha, observem:
- Era um sábado, mais de nove horas da manhã. Acordei com um som apaixonante do saxofone do Dico Moreno, que tocava nos Quatro Bocas. Fui até lá e perguntei a ele. Hoje você está com saudade do ‘Japhá Tempo 5’? Prontamente respondeu.
- Garoto, dediquei a minha vida para a música. Um homem só pode ser feliz se tocar um instrumento. Observando esta máxima tentei ensinar para várias pessoas minha arte. Sou orgulhoso por ter vivido e ensinado a viver das sonoridades no interior do Brasil. Acho que sou saudosista ao extremo, estou ligado ao passado, e me emociono ao tocar, porque me lembro das histórias de aventuras construídas por mim. O som do saxofone me embriaga mais que a cachaça. Disse o Dico Moreno.
Gostei do lirismo, presente na lembrança do grande maestro, que fez a ‘santinha’ dançar, sonhar, emocionar-se por mais de duas décadas. Acabei lembrando de Paul Gonsalves, um dos maiores saxofonistas do mundo, que repetia sempre: “Quando tudo lhe for tirado, e não lhe restar nada, lembre-se. Você teve uma vida feliz”. Você foi e nos fez feliz, Dico Moreno!
Paulo Rodrigues (professor e poeta)