24/09/2011 10h06
Homenagem ao Malandro
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| Paulo Rodrigues (Poeta) |
“Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal…”
(Chico Buarque)
Conversava na esquina, próximo ao quintal de minha mãe. Local que nós chamamos respeitosamente de escritório, porque ali nos reunimos para relembrar alguns grandes feitos de nossa infância, e comentamos também alguns acontecimentos da atualidade. Só que tudo isso é feito com muito ‘profissionalismo’.
Um dos heróis da minha geração - entendam herói aqui como a capacidade de realizar coisas absurdas, inacreditáveis – disse no centro da roda que estava com a caixa de invenção quase secando. Ele estava namorando uma ‘mocinha’ do baixo clero, que o fazia cometer loucuras, mas loucuras mesmo. Eu não satisfeito com aquela síntese, indaguei com seriedade. Faça a narrativa completa. Fiquei sedento para saber o desenrolar da façanha. Aí ele começou:
- Sai sexta-feira meio dia, com a desculpa antiga de receber um dinheiro. A mulher fez logo uma lista enorme de necessidades dela e dos meninos, dos oito meninos. Fiz o sinal positivo com os olhos, aquele bem sério e bem descarado, tão conhecido por minha nega. Peguei um taxi, apanhei a mais nova paixão e caímos no mundo – ‘o mundo é grande e pequeno’ – bebemos, dançamos, nos amamos. Quando acordei já eram seis horas da segunda-feira. Enlouqueci, mas devia enfrentar a mulher mais valente deste mundo. Cheguei esculhambando e batendo em tudo pela minha frente.
Ela virou para mim, com uma classe inglesa e disse:
- Bonito, Você dormiu onde? Estava ajeitando a casa nova? Seremos bons amigos.
- Seremos bons amigos coisa nenhuma. Eu estou louco de raiva. Peguei a moto do Espírito de Lata Velha assim que sai daqui, encontrei uns policiais em frente ao terminal rodoviário, eles mandaram eu parar. Parei sem documentos, bêbado, atrevido. Cai por desacato à autoridade. Chorei estes três dias com vontade de me matar. Não sou de passar vexame. Fico doente, e largue de conversa. Estou zangado!!! Zangado Mesmo!!!
A pobre mulher de Atenas, a doce Amélia encontrou dentro do peito um carinho especial por aquele ‘malandro do bem’. Tirou a roupa dele, deu um banho, fez o mingau de macaxeira de todos os dias. A paz voltou a reinar naquele lar. Eu fiquei com inveja da criatividade fora do comum do meu amigo, pois a criatividade é o elemento capaz de reconstruir a vida. Como diz o Chico Buarque vamos render nossas homenagens ao malandro.
