/Refletindo Através das Letras
09/07/2011 11h15

Pré-Escola Antonio José e o Bicho Papão

Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)  

Estive na Pré-Escola Antonio José na quinta-feira e observei o envolvimento das educadoras com um projeto de leitura animador. Vi o brilho nos olhos das crianças ao trabalhar a capa, ao envolverem-se com a beleza da narrativa, e principalmente o apego com um personagem destacável da Literatura Infantil. Aliás, o Monteiro Lobato no auto de sua sapiência dizia: “Só pode ser bom quem produz ou ler Literatura para crianças, ainda faço um livro onde as crianças grandes e pequenas possam morar dentro dele”. Acho deveras lindo, este aforismo!

O livro ao qual me refiro é ‘Era uma vez um Bicho Papão’ de Graça Santana. Esta autora consagrada nacionalmente que nasceu em Pedreiras, passando a infância no mato, absorvendo todo bucolismo do ‘locus amenus’ pode transformar seus sonhos pueril em uma longa saga do Bicho Papão, isto é, transfigurou para o signo verbal um bicho errante em busca de sua identidade, de sua essência, que seria assustar novamente a criançada de todo o mundo. O nosso ‘Bicho’ não assusta mais crianças do século XXI, no entanto promove boas ações. Ensina sobre um país que deve ser mais justo. Ensina tudo através da alfabetização de uma amiguinha pobre chamada Bertulina, uma menina do interior, do roçado.

É claro, meus leitores, que eu não iria perder a chance de conversar com as educadoras sobre um projeto de leitura tão especial. Chamei a mais empolgada delas. Aquela de luz cintilante nos olhos, quando abraçava o ‘Bicho Papão’ como se fora um amante, lembrei-me inclusive do conto Felicidade Clandestina da Clarice Lispector. Perguntei:

- Minha linda, qual a importância de aumentarmos o letramento das crianças da rede municipal usando a leitura de textos literários, com grandes sutilezas de elaboração lingüística?

- Pensamos que no processo de alfabetização e ampliação do letramento das crianças das séries iniciais, é preciso primeiro formar o leitor (amante do universo maravilhoso da Literatura). Com esta intenção, montamos este projeto de leitura que está motivando a nós todas para ampliarmos nossas leituras e a dos nossos alunos. É importante trabalharmos com autores locais que possam dizer um pouco de nossas crenças, de nossos medos e de nossos sonhos. A Graça Santana, o Luís Henrique, o Carlos Denílson são bons exemplos de autores com belíssimos trabalhos dedicados ao público infantil. Vamos valorizá-los! Respondeu-me com felicidade nos lábios, a educadora.

Eu sonhei em voltar a ser criança e estudar naquela Pré-Escola, porque ela recebe o nome do maior poeta do Vale do Pindaré (meu mestre e de muitos outros), tem uma preocupação enorme em formar leitores de Literatura, e mais ainda, pelo quadro de funcionários dedicados, com intenção de melhorar a educação de Santa Inês. Encerro com o Mário Quintana esta quase crônica: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.
Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)