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Agora Santa Inês - MATA-BURRO NO TERRENO DE DENTRO

MATA-BURRO NO TERRENO DE DENTRO

Por Maricilde Pinto* 

 

Eu me escondi no silêncio. Minha garganta ardia feito feijão no fogo a lenha, minhas mãos fechavam em punho e as unhas quase conheciam a carne da palma, o rosto estava feito o barro da estrada quando chovia, um vermelho vivo.

Mamãe, em seu último aviso de paciência, puchou-me pelo braço e em uma destreza adquirida, tirou o chinelo do pé e lascou na minha bunda. Uma lapada atrás da outra, alimentando a raiva que sentia. Achei que fosse diminuir lá para a terceira penitência, mas parecia crescer como um pecado aos olhos da cruz.

Meu choro não saiu em nenhum momento, ficou preso na guela feito o pé de um jumento no mata-burro. Sofrido, preso na crueza de uma marca de território, pagando pelos pecados de querer sair e ter uma arapuca pronta, tadinho, pra acabar com ele.

Mamãe finalmente cansou a mão e soltou meu braço que a essa altura, estava juçara. Teria mamãe muitos mata-burros no terreno de dentro? Baixei o rosto e segui calada para debaixo do pé de manga, o meu único bom ouvido desse lugar tenebroso, lugar de arapuca para casco. Ouvi dizer que o governo havia proibido e papai não tinha gostado nada nada da ideia. "Como diabé que vou manter eles presos? Por acaso o governo vai mandar vigia?", mamãe concordou sem pena dos pobres, que teriam muito mais marcas de juçara pelo corpo.

Ela não sabia do meu esconderijo e também não fazia questão, havia mata-burro e eu não sairia dali para canto algum; quando o governo mandasse tirar, quem sabe ficaria mais preocupada. Como mais velha, sempre achei que as lições eram para poupar taca aos meus outros irmãos, que ficariam assustados e controlariam as danadices. Em idade de poder pegar no machado de quebrar coco, pude olhar

 

horas e horas para a cara dela e descobrir, no biloto do olho, que eu estava enganadíssima.

Ela beijava meus irmãos no rosto e eu não lembro de saber como é beijo de rosto, só na novela das sete. Beijo de boca na das nove, mas mamãe não me deixava ver. Josué me disse que era quentinho e gostava muito. Mamãe comigo era  abraço de lado em aniversário e só. Josué perguntou porque não choro quando ela me bate e eu disse que é para não dar o gosto. Gosto não sei para quem, se em mim ele fica amargoso que nem chá de boldo sem açúcar, preso no mata- burro da minha guela.

 

*Maricilde Pinto é uma poetisa maranhense, contista e redatora. Estudante de Psicologia pela Universidade Federal do Maranhão, é autora do livro “Retalhos do que é ser humano” e o livreto "O amor há de sobreviver", ambos publicados em e-book pela Amazon. A escritora tem amor à arte e todas as suas formas de expressão e com isso, deseja levar ao mundo o que há de mais urgente na palavra.

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post:

Data: 01/02/2021

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Palavras-chave: MATA-BURRO NO TERRENO DE DENTRO

Fonte: Maricilde Pinto

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