Agora Santa Inês - JOÃO MOLE

JOÃO MOLE

João Mole ficou viúvo aos sessenta. Era o ano da Revolução Cubana. No Rádio, a voz anunciava:

- O guerrilheiro revolucionário Fidel Castro tomou o poder. Expulsou Fulgencio e assumiu as rédeas na ilha. O fantasma do comunismo passeia pela América Latina. Só o exército pode nos salvar!

João escutava com as mãos amarradas ao peito largo. O som alto para ajudar na compreensão. Balançava a cabeça com muitas caretas e negativas:

- Filhos da puta! Malditos comedores de crianças! Se aparecer (um aqui) come bala de vinte até encher o buxo. Gritou João.

Nega Marcela desfilava como porta-bandeira de escola de samba. Tinha charme capaz de acionar a libido dos homens. Antônio Velho e Melão Verde ficavam acesos quando olhavam a preta de saia de chita descendo pelas ruas da Praia Grande. Ela perdeu os dentes numa briga com Maria Caixeira que estava com ciúmes de Pedro Barros. Logo, estava sorrindo pouco, sisuda.

João vendeu o Rancho perto do Rio Anil por uns bons couros de rato. Todos comentavam os bolsos dele. Nega Marcela escutou. Os olhos abriram azuis como um oceano. Passou a andar por cima da calçada e esfregar as pernas nas canelas do negro.

Ele demorou a entender.

No domingo, dormiu cedo e sonhou com a nega. O pênis passou o dia inteiro ereto feito bambu em beira de rio. Balançava para lá e para cá, mas todo tempo empinado. Vestiu uma camisa de garimpeiro verde com umas flores vermelhas grandes e umas folhas que mais pareciam zebras. A seda estava passada no ferro, brilhava bastante. Dona Zeca o avistou primeiro, no exato momento em que colocou os pés no meio-fio. Viu, no cenário, o renascimento:

- Louvado seja Deus! Louvado seja Deus! Saiu dizendo baixinho a senhora.

João tomou duas dozes de cachaça da terra no Bar dos Marinheiros. Olhou para uma pequena janela que abria para o mar. Gaivotas brincavam. As jangadas coloriam um novo tempo.

Sete e meia estava nos braços da fêmea. Não escondiam mais a alegria das mãos unidas.

Cuidou de providenciar os dentes de Marcela. Sapatos. Vestidos longos. Colar. Perfumes e batom vermelho. Ela parecia ter comprado certidão de nobreza.

Sorria como se agradecesse a Orunmilá.

Não demorou dois anos, a nega começou a comprar tecidos todas as manhãs. Passava o resto do dia com dor de cabeça. Os olhos fechados. A buceta indisponível.

Na quinta-feira santa, João Mole foi conferir os passos da prostituta.  Não contou nada para ninguém. Queimou os vestidos no fundo quintal e fixou residência no Bar dos Escravos.

Pedia uma cachaça. Olhava a dentadura de Marcela dentro de uma sacola de plástico. Chorava feito órfão:

- Besta, puta do caralho! Eu perdi tudo mas conservei o sorriso.

 

 

Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018).

Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório.

Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia.

É membro da Academia Poética Brasileira. 

Stefan Pindaré

 

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Regional

Data: 21/07/2021

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Palavras-chave: JOÃO MOLE

Fonte:

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