Agora Santa Inês - O Mapa da Tribo: a volta ao abrigo dos incêndios

O Mapa da Tribo: a volta ao abrigo dos incêndios

“sou o que partilha/ o sangue onírico/desse rio de sobras de etnias”

 

(Salgado Maranhão)

       Tenho me dedicado a leitura de alguns autores contemporâneos. Sinto novidades na forma e na emoção de cada poética moldada, por este momento pós-moderno, capaz de invenções vazias, mas também de criações maiores do que a própria língua.

      Muitos autores buscam o mapa do sentimento humano, que a todos une, sem distinção da cor das savanas, de cada etnia já escrita.

      Agregar as mitocôndrias da nossa mãe África para demonstrar sua permanecia nas pegadas de todas as tribos, espalhadas por um planeta tão heterogêneo, e tão igual, parece a tarefa primaria de Salgado Maranhão; poeta de Caxias, criado para o grau máximo da poesia em Teresina, sob a supervisão subversiva de Torquato Neto.

       Não tão cedo, cedeu aos infortúnios. Perdeu-se do bando para encontrar caminhos salvadores no Rio de Janeiro. Publicou seus primeiros poemas na antologia Ebulição da escrivatura (Civilização Brasileira, 1978). Ganhou reconhecimento e prêmios depois de publicar Punhos da serpente (Achiamé, 1989); Palávora (7Letras, 1995); O beijo da fera (7Letras, 1996); Mural de ventos (José Olympio, 1998); Sol sanguíneo (Imago, 2002); Solo de gaveta (Sescrio.Som, 2005); A cor da palavra (Imago/Fundação Biblioteca Nacional, 2010).

      Ganhou o Prêmio Jabuti, em 1999, com o elogiadíssimo Mural de ventos, e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, em 2011, com A cor da palavra.

      Desde então, entrou para o cardápio geral da nação. Popularizou uma poética densa, que atravessa as ruinas do caminho, para traduzir a impotência dos gerânios na construção das paisagens.

       Há um artesanato na árvore genealógica do homem, expressa com entusiasmo na poética de Salgado Maranhão.

        O Mapa da Tribo (Editora 7Letras, 2013, 99 páginas) é um livro de capa dura, com uma foto de pedras num ângulo bem reduzido, unidas pelas diferenças e tamanhos, numa conversa clara sobre a evolução das vozes no mais profundo da pele. O prefácio é do Domicio Proença Filho que trata logo de reconhecer o aprimoramento do estilo do autor; a construção bem acabada, na primeira parte do livro NENIARAS  E/OU FOTOGRAMAS VERBAIS de textos em versos, e poemas em prosa. Depois segue numa evolução da raça, com imagens acima das alucinações discursivas em OS OUTROS EU, CORAÇÃO NO LÁBIO, POR AQUI AGORA, DA ORIGEM, e DOS  RENAS (SERES). O posfácio fica por conta da Professora Doutora (UFRJ) Iracy Conceição de Souza que despeja predicativos no sangue do poeta. Como se ainda faltasse afirmação, Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Melo Franco, Alberto da Costa, Luiz Fernando Valente, Olga Savary, Jorge Wanderley e Ferreira Gullar reconhecem o além-mar discursivo, no DNA do poeta.

        Percebe-se logo, a exposição das provas desde o início. São mais profundas. Superam Canabrava das Moças, o Maranhão, as injustiças. Encontram-se muitas vezes antes do gozo, ou antes das angústias do homo erectus. Na página 17, texto de abertura da primeira parte. A última estrofe roubou os meus olhos:

 

Cidades anônimas gritam

em minha carne; avenidas

secretas guardam meus sapatos;

de tantos que me tornei,

já não me retorno ao mesmo.

 

        As metonímias acontecem naturalmente, garantindo o jogo de sobreposição de acertos, ao longo das andanças deste homem nômade, incansável na busca das explicações para sua existência, que acabam explicando a nossa também.

         Octavio Paz no livro O arco e a lira diz: “A fala, a linguagem sócia, concentra-se no poema, articula-se e levanta-se. O poema é linguagem erguida”. No “Mapa da Tribo” encontramos um poeta violento, levando ao ápice as raízes da palavra para encontrar as conexões do retorno.

       Em Origem (página 77), há um poema dedicado aos poetas (Dudu Galisa e Paulo Lins). O alter ego derrama deslimites para o passado. Entrega os incêndios do mar aos ancestres:

 

Do mar vem os meus ancestres

remidos pelo tacão,

sou do sal dessas marés

ante o que houve e o que hão.

 

      Caminhar pelas vias, no mapa do poeta Salgado Maranhão, é buscar abrigo nos incêndios do DNA discursivo, de uma das maiores vozes da poesia brasileira.

     

       

 

Texto: PAULO RODRIGUES – Professor de Literatura, poeta, escritor autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017).

Postado por: Redação Agora 03

Categoria do Post: Entretenimento

Data: 28/02/2018

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Palavras-chave: O Mapa da Tribo: a volta ao abrigo dos incêndios

Fonte: Texto: PAULO RODRIGUES – Professor de Literatura, poeta, escritor autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017).

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